DIA DO PSICÓLOGO

 

27 de agosto de 2010

José Luiz Belas

Hoje é Dia do Psicólogo, dia que já comemorei por seguidos 39 anos.

Assim que me formei era um idealista, um lutador, um desbravador que empunhava uma bandeira de lápis-lazúli engastada numa moldura dourada. Ladeando-a viam-se dois faróis de brilhantes que pretendiam iluminar não só o meu caminho como o de muitos outros idealistas com os quais convivi nos anos 70.

Sonho realizado, curso concluído, estrada aberta para ser caminhada, ideias brotando em ritmo alucinado, e lá ia eu convocando parceiros de luta, construindo uma realidade num espaço vazio, como o estômago de um faminto, desejoso de alimento. Havia muito a ser feito. Havia muito a ser mudado.

Durante todos esses anos estive movido por algumas convicções. Baseado nelas ergui meu modo profissional de ser: crença no potencial do ser humano para crescer, paciência para esperar que esse crescimento se manifeste, aceitação da singularidade do outro e tentativa de criar condições para que ele possa viver o mais plenamente possível seu modo único de ser no mundo.

Ainda como estudante de Psicologia, entrei no mundo da psiquiatria e dos pacientes internados. Naquele momento, vislumbrei o grande desafio que me esperava dali para a frente. Como sobreviveriam minhas convicções e meus ideais? Como venceria as lutas que viriam, e vieram, em minha direção? Como desbravar aquela realidade tão fechada tal como uma floresta virgem, inexplorada?

A “bandeira azul” que carregava dava-me força. As pessoas que entenderam e aceitaram minhas ideias mais forças somavam à minha. Cada ano vivido naquela “floresta” permitiu-me praticar essas convicções, consolidar tudo em que até hoje acredito: qualquer ser humano é capaz de se construir, crescer e melhorar-se.

Nesta manhã ganhei um grande presente. Talvez um “sinal” para que pudesse refletir e escrever este depoimento que expressa a mais recente ratificação dos fundamentos sobre os quais ergui meu modo profissional de ser.

Vamos aos fatos.

Sempre que penso em caminhar, vou para o calçadão da praia de Charitas, entre a de São Francisco e a do Patronato. Dali começo e, na maioria das vezes, rumo para o sul. Em outras palavras, passo em frente ao Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, instituição na qual, como muitos de vocês já sabem, trabalhei durante 31 anos.

Nos anos 80 costumava trabalhar com grupos de pacientes. Em um desses grupos havia um esquizofrênico, muitíssimo regredido, apresentando um quadro de mutismo, agitação motora, “totalmente fora da realidade”. O tratamento que recebia era o típico daquela época. Ele não se comunicava com as pessoas e, para horror dos jovens estagiários, era comum estar fedendo a fezes, pois sempre que via alguma pelo chão, pegava e comia. Um quadro muito triste que dimensionava bem aquilo que se poderia considerar um afastamento da condição humana. Dizia-se: incurável.

No trabalho em grupo que realizávamos com aquelas pessoas, não fazíamos qualquer distinção entre os quadros clínicos e aceitávamos qualquer pessoa que quisesse dele participar. Esse paciente sempre passava por lá, logo depois se levantava e saía. Quando nossos grupos deixaram de existir, ao passar pelos corredores do hospital, eu sempre falava com ele, nem que fosse um simples bom-dia.

Por não ter família e pelas condições psiquiátricas que apresentava, foi permanecendo no Hospital. Até hoje ele “mora lá” e participa de várias atividades daquela instituição. Evoluiu. Cresceu rumo ao humano que sempre existiu dentro de si.

Durante minha caminhada de hoje, 27 de agosto, encontrei-me com ele. Jogava bola com um grupo de pacientes, em uma das praias próximas dali.

Parei, falei com ele. Ele falou comigo. Dei-lhe um carinhoso abraço. Fui correspondido com uma imensa ternura.

O presente que recebi veio envolto nesse singelo gesto ofertado por essa nova pessoa, ainda mais humana do que aquela que conheci nos anos 80.

 

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