O TRABALHO PSICOTERÁPICO COM PACIENTES PORTADORES DE QUADROS PSIQUIÁTRICOS GRAVES

06/11/2014 - O hospital psiquiátrico, onde dei os meus primeiros passos rumo aos universos da doença e do doente mental, era um manicômio tradicional. Ali, cada interno era visto, quase sempre, como um campo de estudo, ou como um objeto defeituoso a ser consertado, ou sem chance de conserto. A medicação era o principal meio de tratamento. Assim que cheguei lá, senti um desconforto grande ao ver aquelas pessoas sendo tratadas como coisas e, aos poucos, fui desenvolvendo um modo próprio de agir, na tentativa de ajudá-las. Vejamos , a seguir, alguns aspectos do meu modo de trabalhar.
(1973 vizualizações)

  O TRABALHO PSICOTERÁPICO COM PACIENTES COM QUADROS PSIQUIÁTRICOS GRAVES 
Uma visão muito pessoal 
J.L.BELAS- outubro de 2014
Minhas primeiras experiências, com pacientes psiquiátricos, ocorreram em 1967, quando eu ainda era estudante de Psicologia.   O hospital psiquiátrico, onde dei os meus primeiros passos rumo aos universos da doença e do doente mental, era um manicômio tradicional. Ali, cada interno era visto, quase sempre, como um campo de estudo, ou como um objeto defeituoso a ser consertado, ou  sem chance de conserto. A medicação era o principal meio de tratamento.
Assim que cheguei lá, senti um desconforto grande ao ver aquelas pessoas sendo tratadas como coisas e, aos poucos, fui desenvolvendo um modo próprio de agir, na tentativa de ajudá-las. 
Vejamos , a seguir, alguns aspectos do meu modo de trabalhar.
  O que caracteriza uma pessoa portadora de problemas psiquiátricos graves? 
Numa linguagem bem simples, poderíamos dizer que a característica principal é seu modo de ver e de se relacionar com a realidade.  Essa pessoa vê o mundo de uma forma muito especial, muito própria e muito distante do modo como a maioria das pessoas o vê.
Essa característica geralmente faz com que  aqueles que convivem com psicóticos tenham  muita dificuldade para entendê-los. Nem sempre conseguem perceber alguma lógica no que escutam deles, pois, em alguns momentos, seus discursos são confusos e aparentemente “sem sentido”.   Em decorrência disso, a comunicação fica prejudicada, chegando, com frequência, a inviabilizar um relacionamento efetivo entre eles. O isolamento é uma consequência natural dessa  dificuldade de contato. 
Como é o atendimento de tais pessoas, chamadas de psicóticas?
Elas, segundo penso, devem ser atendidas do mesmo modo como todas as outras, consideradas não psicóticas.
Mas o que isso significa realmente? Significa que esse paciente, de forma idêntica ao que acontece com qualquer pessoa, tem suas ideias, seus desejos, seu modo típico de ser, sua subjetividade e sua singularidade.
O seu jeito de perceber o mundo pode ser diferente da maneira como a maioria das pessoas o percebe. Sua forma de focalizar a realidade pode parecer estranha para muita gente, mas é, exatamente aí – nessa sua visão “ilógica” do que o cerca – que busco penetrar, para tentar compreendê-lo e ajudá-lo no entendimento dessa sua forma peculiar de percepção.
Essa tentativa de compreender o mundo da pessoa psicótica, essa busca que realizo com meu cliente, faz de nós cúmplices de uma nova lógica que nos interliga por meio de uma fala que, para muitos, poderá parecer hermética, mas que – aos poucos – começa a fazer sentido, para mim e para ele.
Para atender um psicótico é preciso que a gente fique “louco”, mas mantendo a consciência dessa loucura temporária que se vivencia nesse encontro profundo entre pessoas, ao qual damos o nome de psicoterapia.
O fundamental nessa terapia, para mim, é a minha crença na capacidade da pessoa para organizar suas experiências, crescer, evoluir, etc... Para que essa capacidade se manifeste é preciso  que eu estabeleça com ela um relacionamento humano no qual estejam presentes algumas condições que considero fundamentais. Tais condições poderiam ser descritas da seguinte forma: 1:  Eu preciso tentar fortemente, usando toda a sensibilidade que eu tiver, compreender o mundo daquela pessoa, tal como ela o descreve para mim. Penetrar naquele universo desconhecido, confuso, querendo, verdadeiramente, conhecê-lo; 2-  Para conseguir entrar no mundo daquela pessoa,  é necessário que eu me livre – ao máximo- de qualquer tipo de julgamento e de preconceito. É fundamental que  tente evitar que meus valores e que minhas crenças interfiram no que vier a ouvir dela.. Não devo me esquecer que ela é uma OUTRA PESSOA, única, singular; 3- Finalmente, preciso querer estar diante dela, não como um profissional , um técnico, um teórico, mas, sim, como uma pessoa real, um ser humano como qualquer outro, disposto a me mostrar como tal. 
A qualidade da relação humana, que se estabelece numa terapia com pacientes psiquiátricos, principalmente com psicóticos, é fundamental.
Se considerarmos que o psicótico vive num mundo à parte , que fala uma linguagem diferente da que falamos, ser visitado em seu mundo, pelo terapeuta, é uma experiência profundamente emocionante e surpreendente, para ele e para aquele profissional.
Um paciente me afirmou:
“Hoje, (referindo-se à sessão que acontecia naquele momento) eu posso dizer tudo. Quando sair daqui, não adianta falar. Lá (referindo-se à casa dele), ninguém entende o que eu falo”.
Quando atingimos um nível de relacionamento como o descrito acima, observamos que o paciente começa a se arriscar a falar mais de si, e mais, a expressar emoções ligadas ao seu mundo atual. Fala de pessoas e situações do seu hoje. Esse discurso costuma vir acompanhado expressões de sentimentos (raiva, alegria, amor, ódio...). Percebe-se que, naqueles momentos, ele sai do seu mundo isolado e se aproxima de um outro mundo, o da relação real entre duas pessoas. Permite-se  abraçar, zangar, sorrir, ponderar, criticar-se, aceitar-se, mostrar-se mais inteiro e em equilíbrio.
  Talvez, alguns profissionais, que já tenham vivido essa prática, possam compreender melhor o que estou tentando expor.
Só resta dizer que: quando escuto, atentamente, meu cliente (psicótico ou não), sem me preocupar com diagnósticos, julgamentos morais, éticos ou outros de qualquer natureza; quando estou ali, com ele, o mais “presente” possível, sendo eu, do modo como sou (sem me esconder atrás de máscaras profissionais), ocorre, então, um “fenômeno” muito significativo: o outro se arrisca a mostrar-se como ele, de fato, é.
Nesse mostrar-se, há algo novo que é a possibilidade de ele ir além da percepção, que até então tinha de si. Em outras palavras, começa “realmente” a se conhecer e a se compreender, e, possivelmente, em decorrência desses dois fatores – conhecimento e compreensão – inicie um processo de aceitação de si, de ampliação de sua imagem, de seu eu, de sua pessoa. Essa ampliação gera mudanças no seu modo de ser, de se ver, de ver os demais e de ver a  realidade na qual ele vive, muitas vezes distorcida pela visão que possui dela.
    Costumo dizer que, para se trabalhar com psicóticos, ou com outros transtornos mentais graves,  precisamos conhecer bem o “caminho de volta” e saber que a fronteira entre esses dois mundos não existe concretamente. Precisamos aprender a entrar e sair do mundo dele. Se possível  construir, com ele, uma ponte que ligue nossos mundos.
Precisamos aceitar a “loucura” do paciente para que ele possa aceitá-la também. Só assim ele poderá optar – se quiser, ou puder – pela “não loucura”, ou por um universo intermediário.
Somente entendendo a natureza humana de uma pessoa psicótica é que poderemos, com tranquilidade e segurança suficientes, empreender essa “viagem” emocionante, humana, que é a terapia de um paciente com um transtorno psiquiátrico tão severo.
 
00000000000000000
00000000000  

COMENTE



Nome:


E-mail:


Copyright © 2008 J.L.Belas - Todos os direitos reservados.