Bonsai- Conceitos Básicos (Primeira Parte )

03/09/2009 - Conteúdo da apostila Bonsai - Sítio Quintal - Engenho do Mato – Niterói - RJ.
(14685 vizualizações)

 

CONCEITOS BÁSICOS SOBRE A ARTE BONSAI

J.L.Belas
Maio de 2005

 

Material teórico contido na apostila fornecida nos nossos “minicursos”

1- O que significa bonsai?

"Bonsai significa o cultivo, o trato, o cuidado de uma árvore plantada em uma bandeja"1.

2- De onde vem essa arte, sua origem?

Há muitas informações contraditórias nos livros e nas revistas especializadas em bonsai, mas a maioria dos estudiosos sobre essa arte afirma que ela surgiu na China. "Foi na época dos Tsin (séc. III A.C.), na China, que surgiram os primeiros indícios da arte do bonsai"2. 

Encontrei uma informação numa revista atual em que se afirma que sua origem é a Índia:

O bonsai, ou melhor dizendo, a técnica do cultivo de árvores em bandeja ("Vaamantanu Vrikshaadi Vidya": Vaaman = anão pequeno; Tanu = corpo; Vrikshaadi = das árvores; Vidya = ciência) foi criada, inventada, praticada e transmitida ao mundo oriental pelos antigos indianos, assim como a medicina, a física, a matemática, a geometria, a filosofia, a teosofia e quase todas as artes, incluindo as marciais... Os indianos praticavam ou faziam Bonsai por diferentes motivos, além da contemplação e da arte. Eles praticavam a medicina Ayur Vedica, onde as cinco partes mais importantes para a cura das enfermidades eram encontradas nas raízes, na casca, nas folhas, nas flores e nos frutos. Devido às enormes distâncias que esses médicos tinham que percorrer e à impossibilidade de carregar um Banyan ou um Tamarindo nas costas, os indianos reduziram as gigantescas árvores medicinais, tornando possível o transporte delas em caravanas, o que garantia medicamentos frescos para seus pacientes.3  

3- Princípios básicos sobre a "construção de um bonsai"

A construção de um bonsai parte de algumas ideias básicas e vamos dividi-las, aqui, em dois temas gerais: “Aspectos da filosofia que norteia essa arte” e “Sugestões básicas para a construção de um bonsai”.

3.1- Aspectos da filosofia que norteia essa Arte

Há uma filosofia na base da prática do bonsai. Sem maiores aprofundamentos, seria interessante se soubéssemos que:

O Bonsai começou numa época em que os chineses acreditavam que a montanha era o ponto de encontro do homem com os deuses. Então, as pessoas procuravam ter em casa algo que representasse a vida que havia nas montanhas. Foi aí que começou o p'en-tsai, ou bonsai, como se chama hoje em dia.

Quando a arte bonsai entrou no Japão, ela estava dentro da linha de prática do zen-budismo... o ‘bonsai-do’ estava mais para o lado masculino, porque eram os samurais que praticavam a arte. Eles se dedicavam ao bonsai para fortalecer o aspeto ‘Mu-Shin’ ou ‘Wu-Sin’ (chinês) – que significa sem pensamento – cujo objetivo é transformar uma atividade em não ação... A palavra significa caminho, via. Explicando melhor, é um caminho que leva o indivíduo a si mesmo. No caso do bonsai, ele é uma via que nos leva à prática da busca do auto-conhecimento1.

Relação entre zen-budismo e bonsai

Na China, existiam o taoísmo e o budismo vindo da Índia, muito tempo atrás. Com a chegada de Bodidarma na China, houve uma fusão entre praticantes do taoísmo e do budismo. Foi aí que se formou o zen-budismo, que se baseia na prática que estimula a observação dos pensamentos ou do movimento cerebral. Lavar louça ou cultivar uma árvore numa bandeja, observando o pensamento, são exemplos disso. Esta é a mesma prática que você tenta fazer no bonsai1.

Uma árvore pequena

Os taoístas acreditam na possibilidade da vida eterna. Eles acreditam que, quanto mais energia uma pessoa poupar, mais tempo ele poderá viver.  Através de exercícios de ioga, eles conseguem, sem prejuízo para o organismo, diminuir as batidas do coração, a pulsação, a passagem do sangue. Acreditam que dessa forma estão poupando energia. Essa prática taoísta era realizada com cachorros, gatos, ou quaisquer outros bichos. Eles pegavam o animal e tentavam diminuir sua atividade, para ver aquele que vivia mais tempo. A ideia de poupar energia de pessoas e animais para prolongar a vida também era aplicada às plantas. Cada vez que nascia um novo broto, os taoístas o tiravam para poupar a planta de desgaste. Quando nascia uma flor, tiravam a flor para não desgastar a planta. Aí, a planta continuava o seu processo de envelhecimento, mas ficava pequena, ficava uma planta baixinha. Apesar de não crescer no tamanho, essa planta adquiria, no decorrer natural do tempo, características de velhice no tronco, na casca, no desenho. Os taoístas faziam isso com o intuito que a planta também chegasse a viver duzentos, trezentos anos1.

Benefícios que a prática da arte bonsai pode trazer

O benefício do bonsai está no fato de ele conduzir a pessoa à observação do pensamento, como também à observação do todo. Como qualquer tipo de arte bem praticada, falando basicamente sobre as artes orientais, o bonsai leva o indivíduo ao auto-conhecimento, ajudando-o a entender como funciona sua mente, como está dirigindo seu pensamento. O pensamento só acontece no futuro ou no passado, não no momento presente. O objetivo é exatamente viver no presente1.

3.2 - "Sugestões Básicas para a Construção de um Bonsai"

Os bonsaístas tradicionais seguem as "regras básicas" e as consideram fundamentais para a correta construção de seu bonsai. Outros, que denominarei aqui de "não tradicionais", não veem o mesmo significado nelas e valorizam mais o resultado visual do trabalho realizado.

Por exemplo, vejamos algumas "regras básicas:  

· A largura do tronco, na base de uma árvore, tem que ser igual ou maior do que a

  altura da bandeja;

· O comprimento da bandeja tem que ser igual a dois terços da altura da planta;
· É ideal que a altura da planta seja seis vezes a largura da base;

· Considera-se defeituoso um bonsai em que o primeiro galho aponta para a frente;
· Salvo alguns estilos muito específicos, na maior parte dos casos o bonsai tem que

  ser triangular.  

Nosso trabalho, no Quintal, apresenta uma certa mistura entre seguir as Regras Básicas Tradicionais e Um Estilo mais Livre de se construir bonsai.
Temos dado mais atenção ao resultado estético, visual, do que à observância das  regras tradicionais, embora reconheçamos o quanto elas, se seguidas atentamente, e com maestria, produzem resultados profundamente estéticos. Certamente, não nos sentimos, ainda, preparados para realizar obras semelhantes às dos grandes Mestres. Um dia, quem sabe, a gente chegará lá.

3.2.1 - A escolha de uma muda

Sempre que estou conversando sobre bonsai, invariavelmente, alguém surge com a pergunta: “É possível fazer um bonsai a partir da muda de qualquer planta?” Essa pergunta é pertinente, pois, em princípio, qualquer planta pode ser reduzida em seu tamanho, bastando, para isso, que se observem alguns detalhes no seu cultivo. Entretanto, quando se fala de bonsai, há alguns aspectos que não podem ser perdidos de vista. Entre eles está a importância que o "equilíbrio" e que a "harmonia" têm nessa arte.  

 


Basta que se pense num bonsai feito a partir de uma muda de jaqueira ou de amendoeira, por exemplo, para que se perceba que o tamanho das folhas dessas plantas é muito grande e isso afetaria o visual de nosso bonsai.
O fruto de uma jaqueira é, teoricamente, maior do que um bonsai pequeno.
A harmonia e o equilíbrio do bonsai, construído a partir dessa planta, ficariam completamente comprometidos. Por isso, quando você selecionar uma muda para começar a fazer o seu bonsai, não se esqueça de levar em consideração o tamanho da fruta (se for árvore frutífera, é claro), o tamanho das folhas e o tamanho das flores da planta escolhida.

Outro aspecto importante refere-se ao tamanho do bonsai que se pretenda construir. Imaginemos que se queira fazer um bonsai míni (entre 5 e 15 centímetros), ou um clássico (entre 15 e 60 centímetros), ou um grande (entre 60 e 120 centímetros), nesse caso, a muda poderá ser de uma espécie com características bem diferentes umas das outras.

Uma serissa serve para fazer bonsai míni, clássico ou até grande. Uma muda de laranjeira, certamente não servirá para se fazer um minibonsai. Embora eu já tenha visto muitas plantas miniaturizadas, que receberam o título de bonsai, os bonsaístas mais rigorosos, nos seus critérios de classificação e conceituação do que vem a ser um bonsai, só aceitam como verdadeiros  bonsai os construídos ou cultivados a partir de árvores. Eles dão o nome de "bonsai arquitetura" àquelas plantas pequenas, parecidas com um bonsai, construídas com outros tipos de vegetais.

As mudas com as quais estamos trabalhando, aqui no Quintal, são de: pitanga, bougainvíllea (primavera), ixória, serissa, fícus (rajado e verde), ipê, buxinho, jasmim, azaleia, cerejeira do Rio Grande, jabuticaba, pingo de ouro, aroeira, etc.
As mudas de bougainvíllea (primaveras) são as que mais possuímos, por termos, aqui, muitas matrizes (bougainvílleas antigas) de troncos grossos, com mais de 20 anos de idade.

Temos conseguido fazer mudas a partir de estacas de troncos com mais de seis centímetros de diâmetro. Vale dizer que as mudas dessa espécie não conseguem engrossar o tronco, uma vez plantadas num vaso de bonsai. Por isso é importante que a plantemos nele quando o tronco já estiver numa grossura desejável para o projeto que estamos querendo realizar.

Há algumas pessoas que preferem fazer suas mudas a partir de sementes. Isso é possível, mas o tempo necessário, até que a planta cresça e tome forma e aspecto de envelhecimento é, para muitas espécies, muito longo. Por isso, há certas vantagens em se fazer o trabalho a partir de mudas já bem desenvolvidas e que já possuam uma estrutura de galhos e tronco que favoreçam sua transformação mais rápida num bonsai: coisas de nossa época e da vida que todos nós levamos, em que tudo preferentemente tem que acontecer com maior rapidez. Por causa disso, algumas pessoas mais questionadoras chegam a indagar se um bonsai construído a partir de uma estaca, ou uma planta já bastante desenvolvida, poderia ser chamada, realmente, de bonsai. Bem... Isso é uma questão a ser discutida, talvez numa outra oportunidade.

3.2.2 - A escolha de um vaso (provisório, definitivo...)

Como já mencionamos, quando falamos das "regras" para a construção do bonsai, nem sempre basta que tenhamos um vaso para plantar nossa árvore. Um belo vaso pode ser o pior para a nossa bonita planta. Um belo vaso sempre será aquele que estiver em harmonia com nosso bonsai. Ele pode ser mais fundo, mais raso, mais largo, mais "feio"... mas... precisa estar em equilíbrio com a arte final.
Há pessoas que compram o bonsai pela beleza do vaso. Há outras que perdem a oportunidade de comprar um bonito bonsai, porque ele está plantado num vaso feio  ou inadequado. Por isso, é importante que nós, antes de escolhermos o vaso,  possamos imaginar se ele é adequado ao projeto que temos em mente.

Um outro aspecto é que, embora num workshop como o nosso, se tivermos um vaso para trabalhar com uma muda, ele não é forçosamente o desejável para o futuro dessa nossa planta. O vaso e a muda que estamos fornecendo servem, aqui,tão somente para uma prática de lidar com esse material: sua preparação, poda, dreno, etc. Nem sempre a gente coloca um bonsai em construção num vaso  definitivo. Geralmente o colocamos num vaso comum, num vaso de treinamento, pois isso facilita o nosso trabalho de preparação de sua forma final, o que se obtém, muitas vezes, através da utilização de técnicas de aramação, de âncoras com fios de nylon, etc. É costumeiro que se trabalhe a planta num vaso comum e só depois, quando o bonsai já está desenvolvido, "formatado", é que o passamos para o vaso definitivo.

Há vasos de cimento, de louça, de argila, de plástico... Temos utilizado todos. Cada um deles pode ser apropriado para certas espécies e para determinadas etapas do nosso trabalho. Voltaremos a este assunto mais adiante.

3.2.3 - Ferramentas, outros instrumentos e materiais básicos

É desejável que a pessoa que vá construir um bonsai disponha de ferramentas para a realização mais fácil do seu trabalho.

 

A lista mínima pode ser a seguinte:

- uma tesoura para poda de galhos;

- uma tesoura para poda de raízes;

- um alicate de corte lateral;

- um alicate para cortar arame;

- um pequeno serrote ou serra tico-tico;

- uma pinça;

- rastelo ou vareta para limpar e soltar as raízes.

 

 Necessitará também de outros materiais, tais como:

- arames de cobre ou alumínio, de várias grossuras;

- tela para a drenagem do vaso;

- hashi (ou espetinhos para churrasco) para assentar a planta no vaso;

- pasta cicatrizante (ou pasta de dente, ou graxa de polir sapatos, ou pomada

  Hipoglos).

Mas, se a pessoa não dispuser disso tudo, ela, com alguma criatividade e habilidade, conseguirá resolver a questão com uma boa tesoura de poda, pasta cicatrizante, arame e alicate comum.

3.2.4 - A preparação do vaso (tela, grampos...) 

Uma vez escolhido o vaso, precisamos prepará-lo, ou seja, colocar nele um dreno, feito, preferentemente, com uma tela de nylon a ser fixada no furo do fundo do vaso. Essa tela deverá ser fixada com arame de cobre. Isso é feito para que, ao colocarmos a terra e a muda, essa tela não se desloque do furo do vaso. Se isso acontecer a terra escoará por ali e...

Há uma técnica que se utiliza para fazer essa fixação. Nós a ensinaremos durante o nosso encontro.

Quando utilizamos vasos feitos de cimento, além de prendermos a tela, é bom que, antes disso, o coloquemos dentro de um tanque ou recipiente com água suficiente para cobri-lo. Costuma-se fazer isso para que se retire o excesso de pó do cimento, que costuma permanecer nesse objeto, evitando, assim, interferência dessa substância na composição da terra onde será plantado nosso bonsai.

 

3.2.5 - A preparação da terra

( Veja este tópico e outros na Segunda Parte deste texto .Para isso, clique em  http://www.jlbelas.psc.br/meustextos.php?var=meustextos&op=texto&id=81  )

COMENTE



Nome:


E-mail:


Copyright © 2008 J.L.Belas - Todos os direitos reservados.