TEXTO - Introdução a UMA Psicoterapia Centrada No Cliente(Parte I)

14/05/2013 - Esse material, que ora lhes apresento, revisado, foi escrito em 1976. Sua redação inicial teve como objetivo servir como base para os grupos de discussão e estudos dos estágios por mim supervisionados, com a duração de 2 anos, entre 1972 e 1984, realizados no nosso Serviço de Psicologia Clínica do Hospital Estadual Psiquiátrico (Jurujuba – Niterói/RJ-Brasil). Leia também a Parte II e a Parte III publicadas neste site.
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INTRODUÇÃO A UMA PSICOTERAPIA CENTRADA NA PESSOA
J.L.Belas – 1974/2008
INTRODUÇÃO
Quando eu era menino, sonhava ser um piloto de aviões.
Quando entrei para o Liceu Nilo Peçanha, aos 12 anos, meu sonho era tornar-me um médico.
Ao servir ao Exército, imaginei que me poderia tornar um militar.
Ao tentar manter o sonho de ser médico, enveredei-me pela Matemática e, depois, pelo Direito.
Ao trabalhar num banco, imaginei que me pudesse tornar um bom Contador e ser Gerente de uma agência bancária.
A Música sempre esteve presente em minha vida e, por alguns anos, ela me atraiu a ponto de pensar seguir este caminho profissionalmente.
Cheguei aos 25 anos sem saber que rumo tomar.
No final de 1965, passei por uma experiência fundamental para minha vida. Fiz uma orientação vocacional. Descobri, ali, a Psicologia e tudo o que ela me poderia oferecer, enquanto campo de realização pessoal e profissional.
Meu primeiro ano de estudos foi no Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (antes conhecida como Universidade do Brasil). Isso aconteceu em março de 1966.
Quando fui para a "Nacional", ainda tinha dúvidas sobre a escolha que havia feito. Imaginei que o Curso de Psicologia me fosse frustrar um pouco, pois a ideia que eu tinha, ainda como leigo, era que esse assunto me iria colocar muito mais próximo da Filosofia do que das ciências exatas (meu sonho de consumo naquela época).
Para surpresa minha, ao lado de muita Filosofia, nesse curso havia uma exigência grande, não só em relação à precisão das ideias, mas também das medidas matemáticas: Estatística, Psicometria, etc. Nele, pude também reencontrar a Biologia, que me fascinava, quando ainda pensava na Medicina.
Foi de imensa importância, na consolidação de minha certeza em relação ao curso que iniciara, o contato como um docente de metodologia científica, Professor Otávio Soares Leite.
Nos primeiros anos de minha formação como psicólogo, os estudos sobre Psicanálise tomaram grande parte do meu tempo, como costuma acontecer com os estudantes nos Cursos de Psicologia. Os temas psicanalíticos eram interessantes, mas, para mim, ficava faltando algo, que não percebia com clareza o que poderia ser. Não me sentia afinado com a metodologia freudiana.
Em 1969, entrei em contato com as ideias de Carl Ramson Rogers.
A forma de aquele psicólogo apresentar suas propostas teóricas e o modo como desenvolvia seu trabalho clínico provocaram em mim um interesse muito grande por suas teorias. Portanto, foi somente, quando já estava cursando o quarto ano da faculdade, é que percebi que havia encontrado o que me parecia faltar nos outros enfoques teóricos, que até então me haviam apresentado.
O interesse desse autor pela pesquisa talvez tenha sido o que mais me atraiu em seus trabalhos: era, para mim, o tão sonhado encontro entre o subjetivo e o objetivo no estudo da psicoterapia, entre o "exato" e o "inexato".
Em 1972, já como psicólogo do Hospital Estadual Psiquiátrico de Jurujuba, Niterói, fui procurado por alguns estudantes de Psicologia, que me pediram para estagiar lá, sob minha supervisão.
Nessa época, já havia organizado, em meu consultório, um grupo de estudo sobre a Psicoterapia Centrada no Cliente. Esse grupo, que se reuniu semanalmente até 1975, era constituído por quatro Psicólogos, um Médico Clínico, dois Filósofos e uma Orientadora Educacional.
Cada vez mais as teorias de Rogers estavam presentes no meu dia a dia, e crescia em mim a vontade de escrever um trabalho sobre essa abordagem, segundo minha experiência.
A possibilidade de estar com um grupo de estudantes estagiários de Psicologia e com outras pessoas, profissionais da área da Saúde, interessados nas ideias de Rogers, motivou-me a tentar organizar e transmitir algumas de suas ideias, consideradas por mim como importantes para o desenvolvimento de um trabalho clínico.
Esse material, que ora lhes apresento, revisado, foi escrito em 1976. Sua redação inicial teve como objetivo servir como base para os grupos de discussão e estudos do estágio, de duração de 2 anos, supervisionados por mim, entre 1972 e 1984, realizados no nosso Serviço de Psicologia Clínica do Hospital Estadual Psiquiátrico (Jurujuba – Niterói/RJ - Brasil).
Seu conteúdo contém algumas ideias minhas sobre a Psicoterapia Centrada no Cliente, tal como a entendi durante aqueles doze anos, em que a supervisão dos estagiários de Psicologia ficou sob minha responsabilidade.
No período anterior a 76, alguns artigos já haviam sido escritos por mim sobre a clínica rogeriana, mas todos eles focalizavam situações práticas gerais do dia a dia do trabalho como psicoterapeuta, e não davam uma ideia mais abrangente e clara sobre a teoria, que sustentava a minha atividade profissional.
Em 1976, surgiu, então, uma razão mais forte para iniciar esta tarefa árdua, mas apaixonante, que é escrever um documento tão longo como o que agora lhes apresento: meus grupos de estagiários.
A pouca bibliografia disponível naquela época, principalmente em língua portuguesa, não favorecia aos estudantes um acesso mais objetivo aos conceitos e às definições importantes para o estudo e a compreensão da Psicoterapia Centrada no Cliente.
Para sistematizar os temas a serem apresentados aos estagiários, tomei como base um documento escrito pelo próprio Rogers para o COMPREHENSIVE TEXTBOOK OF PSYCHIATRY, editado por Freedman, Kaplan e Sadock, publicado em 1974.
Desse livro, tirei o roteiro geral e procurei, dentro do possível, enriquecê-lo com alguns comentários, além de desenvolver alguns temas que, naquela publicação, só eram levemente tocados.
Procurei também acrescentar um pouco da minha experiência pessoal como psicoterapeuta: o que senti junto aos meus clientes, suas declarações, minhas observações e as hipóteses que eu havia ratificado ao tentar ser o que se poderia chamar de "Rogeriano".
Todavia, ao escrever este documento, acreditava muito no que Rogers dizia e com ele concordava mas isso não bastava para que me pudesse considerar, ou que os outros me considerassem um Rogeriano, ou um de seus "representantes". Por isso, busquei escrever sobre as ideias desse autor tal como foram documentadas em várias obras e, além disso, dar também algumas opiniões minhas sobre o tema, baseadas na minha vivência clínica, "adotando" esse enfoque teórico.
O termo adotar, no enfoque rogeriano, não me parece muito válido, já que dá margem ao surgimento de distorções, como aquelas que se observam comumente entre alguns terapeutas. Alguns deles, às vezes, dizem: "Eu também adoto uma atitude rogeriana com alguns clientes". Na verdade, não se pode ADOTAR uma atitude rogeriana. Chega-se a ela de dentro para fora, como algo que tem de partir de certas convicções sobre a natureza humana. Não se podem pegar as ideias de Rogers e adotá-las como um instrumento que sirva para algumas ocasiões. Esta explicação, provavelmente, ficará mais clara através do que poderá ser lido ao longo deste documento.
Esse propósito de não me colocar como representante de uma corrente de pensamento, ou da teoria psicoterápica proposta por Rogers, levou-me a dar a este trabalho o título de "Introdução a UMA PSICOTERAPIA CENTRADA NO CLIENTE".
Desejo, com isto, deixar claro que muito do que foi escrito aqui, com exceção, é claro, das citações do próprio Rogers, e de outros que sobre ele escreveram, é uma visão muito pessoal, minha, sobre o pensamento daquele autor.
Indiscutivelmente, o pensamento desse psicólogo teve uma influência profunda na construção do meu modo de agir e ser junto aos meus clientes. Isso fica claro em cada escrito meu, em cada afirmação que ouso fazer sobre as conclusões e os achados que venho acumulando ao longo de algumas décadas de trabalho com pessoas.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Várias vezes, vi-me diante de pessoas que – a despeito de seus conhecimentos sobre Teorias Psicoterápicas – tinham uma visão distorcida da Abordagem Rogeriana.
A sucessão de fatos idênticos a este chamou minha atenção.
Perguntava a mim mesmo: por que essas pessoas formam uma ideia da Client-Centered,
como se ela fosse um enfoque SUPERFICIAL e INGÊNUO?
No rastro dessa pergunta, surgiram inúmeras respostas. Citarei algumas, sem, contudo, estabelecer um critério de grau de importância entre elas.
Tenho observado que vários cursos, em que se ministram cadeiras como Aconselhamento Psicológico, Teorias e Técnicas Psicoterápicas, etc. (como acontece nas Faculdades de Psicologia, nas de Educação e em tantas outras), às vezes, incluem a teoria rogeriana em seus programas. Entretanto, como os professores têm que dar uma ideia de várias teorias sobre "aconselhamento" e "psicoterapia", num espaço de tempo exíguo, seria de se esperar que seus alunos tivessem apenas uma ideia SUPERFICIAL E INGÊNUA não só da PCC, como também de todas as outras orientações teóricas.
Um outro fator possivelmente acarrete também tais dificuldades. Se não me equivoco, os alunos, que frequentam os cursos ligados, direta ou indiretamente, à tarefa de ajuda psicológica, recebem uma carga horária maior destinada ao estudo da Psicanálise, em comparação com as destinadas ao ensino de outros enfoques. Todos sabemos o quanto as ideias psicanalíticas foram, e ainda são, exploradas pelo cinema, pela literatura... Muitas pessoas, mesmo hoje, chegam a confundir tratamento psicológico com Psicanálise ou, como muita gente fala, Análise.
Muitos estudantes chegam à Faculdade de Psicologia já "sabendo" muitas coisas sobre Psicanálise. Sabendo entre aspas, pois há, comumente, uma visão distorcida do que Freud escreveu. Entram, portanto, pensando que sabem alguns conceitos da Psicanálise e, quando começam a estudar realmente o assunto, percebem o quanto desconheciam até mesmo os conceitos mais básicos daquele enfoque teórico. Passam a considerar a Psicanálise uma teoria complexa e profunda, difícil de ser entendida sem um estudo sério e sistemático. As outras teorias lhes soam como desinteressantes, superficiais, de linguagem simples (ingênuas).
Superficiais, porque imaginam que elas não poderiam ajudar as pessoas na solução dos distúrbios "mais profundos" da personalidade (tarefa que seria reservada, e exclusiva, a um método tal como o da psicanálise); ingênuas, por não serem (aparentemente) teorias estruturadas com o mesmo grau de complexidade daquelas que norteiam as obras freudiana e neofreudiana.
Esse, entre outros aspectos que surgem na comparação entre a Psicanálise e outros Enfoques Teóricos, faz com que muitas pessoas passem a ter a impressão de faltar uma profundidade em suas bases filosóficas e "científicas" em todos aqueles que se distanciem, mesmo que minimamente, das ideias freudianas.
Como falei anteriormente, todas (incluindo a Psicanálise) são estudadas superficialmente pelos alunos de nossas Faculdades, e são raros os que conseguem saber bem, ao término de seus cursos, sequer uma delas.
Considerar a teoria psicanalítica complexa parece válido. Achar todas as outras simples não parece correto.
Creio que, muitas vezes, não há tempo suficiente para que o estudante descubra o grau de complexidade que existe naquelas teorias, aparentemente simples, superficiais, que usam uma linguagem diferente da Psicanálise. Mas, infelizmente, parece que já se instalou, com o tempo, este preconceito. Ele também contribuiu para que vejam a PCC como superficial e ingênua. Para conhecer a Psicanálise, precisa-se de muito tempo, de vários anos, mas, para saber o que é a PCC, alguns meses bastam. Assim pensam aqueles que nada entendem sobre a teoria rogeriana.
Se, por um lado, muitos, a priori, veem a PCC como superficial e ingênua, outros, num polo
oposto, acreditam que ela seja uma SUPERTEORIA.
Nem num polo, nem no outro. Temos que tentar conhecer, o mais que pudermos, as ideias lançadas por Rogers e seus colaboradores, e procurar sentir o que realmente eles propõem, o que concluíram em suas pesquisas, o que chamam de psicoterapia, o conceito que têm sobre o papel do terapeuta, o que consideram ser uma personalidade saudável, etc.
Num determinado momento histórico das práticas psicoterápicas e também dos métodos pedagógicos, muitos profissionais descobriram as ideias de Rogers. Por elas estarem ligadas a valores aparentemente "recém-redescobertos" por nós, como, por exemplo: LIBERDADE, AUTENTICIDADE, ACEITAÇÃO DO OUTRO, etc., essas pessoas optaram pelas ideias daquele autor e tentaram "adotar" os conceitos contidos em suas obras. Todavia, o que se pode perceber é que vários profissionais, que se diziam "simpatizantes" das propostas de Rogers, íntima e profundamente, não traziam em si as convicções que caracterizavam os que se sintonizavam,verdadeiramente, com a filosofia subjacente às suas ideias mais importantes.
Nas décadas de 60 e 70, muitos profissionais brasileiros, principalmente os da Educação, da Psicologia e da Psiquiatria, viram-se envoltos num MODISMO, sem perceberem, exatamente, até onde sentiam, de fato, em si mesmos, uma ressonância da filosofia contida nos escritos de Rogers. Notava-se, por suas atitudes, que eles não viviam, no dia a dia, tais ideias como uma parcela da sua própria maneira de viver.
Ser ROGERIANO estava na moda, e muitos embarcavam nesse rótulo apenas pelo STATUS.
Por outro lado, as informações distorcidas das ideias de Rogers acarretaram – principalmente em muitos ambientes ligados à psicoterapia e à saúde – uma negação desse status(ser rogeriano).
Para muitos psicólogos, estudantes de psicologia, psiquiatras e outros profissionais da saúde, ser rogeriano era ser superficial, era fazer "H-hm!", era fazer terapia de apoio, era ser ingênuo quanto à natureza dos problemas mais profundos dos seres humanos, etc., etc.
Isso apenas demonstrava a distância em que se encontravam daquilo que foi proposto por Rogers.
Por essas razões, o mais importante, agora, depois de tais considerações iniciais, é que tentarei descrever, da melhor maneira que puder, o que vem a ser "rogeriano", segundo minha ótica.
Sempre que for citada alguma frase ou palavra retirada do que Rogers tenha escrito, destacarei isto colocando "entre aspas", acompanhadas de uma referência bibliográfica. As demais serão um olhar meu sobre o tema, baseado na minha própria experiência clínica e, por isso mesmo, poderão ter muito, ou quase nada, do que Rogers propôs.
Tal postura justifica o título que dei ao presente trabalho: "Uma psicoterapia centrada no cliente".
2 - DEFINIÇÀO E HISTÓRICO
DEFINIÇÃO
A seguir, alguns conceitos que, no conjunto, nos ajudarão a definir mais corretamente este enfoque terapêutico.
Podemos, logo de início, dizer que ele é FUNDAMENTALMENTE UMA TEORIA DAS RELAÇÕES
HUMANAS.
De fato, quem vivenciou as ideias de Rogers teve oportunidade de sentir como a psicoterapia centrada no cliente é, em sua base, um processo de relacionamento humano, e como este tipo peculiar de contato entre pessoas é um fator fundamental na promoção de uma ajuda psicológica.
Na terapia rogeriana, o terapeuta parte de uma hipótese principal:
"O potencial de crescimento de qualquer indivíduo tende a ocorrer num clima de relacionamento onde uma pessoa (considerada auxiliar) está experienciando e comunicando, como um indivíduo real, seu apreço e uma profunda compreensão não julgadora" (ROGERS, 1974).
Embora esta hipótese possa soar como simples, não complexa, encerra justamente o oposto.
Comunicar, “experienciar”, não julgar, como veremos mais adiante, passam a ser condições importantes para que se coloque em andamento o processo, ao qual damos o nome de psicoterapia. Reunir essas atitudes é o que se espera de uma pessoa que se proponha a ser um terapeuta, neste enfoque teórico.
Como se pode deduzir, não se trata de uma conquista fácil, pois isso exige que o profissional tenha, muito bem sedimentada dentro de si, uma "filosofia pessoal", caracterizada por alguns valores em relação aos seres humano e sobre o relacionamento entre eles.
Uma outra observação faz-se necessária: A PCC É UM ENFOQUE QUE SE ORIENTA MAIS PARA O PROCESSO DO RELACIONAMENTO DO QUE PARA OS SINTOMAS OU SUA CURA.
O que se pretende com essa afirmativa é deixar bem claro o quanto esse enfoque teórico se afasta de um modelo médico.
Esse modelo (médico) é o que praticamente norteia a maioria dos enfoques, que visam remover sintomas e "curar" as "doenças". Talvez esse modelo nunca tenha sido bom para se trabalhar em nível de relacionamento humano, pois a relação com pessoas não pode ser artificializada por uma metodologia que tire do contato delas o que, nele, de humano realmente existe: dois seres complexos que vivem, que se querem conhecer, e que percebem que nenhum ponto de referência fora deles pode explicar o que eles são. Desta forma, o mundo de cada um é “experienciado” individualmente e, aí, não há lugar para julgamentos e críticas. Pode-se, somente, sentir o fluir de uma existência singular, suas configurações, seus caminhos, suas dúvidas, seus medos, seus ódios, seus amores, tudo que ocorre, de forma única, dentro de cada pessoa.
Esta realidade singular, esta vivência particular, neste mundo igualmente particular, em que cada um de nós vive, constitui o contexto em que cada problema de cada pessoa se desenrola. Só ela é capaz de conhecer realmente os elementos deste cenário. Entretanto, ela pode transmitir-nos muitos desses elementos que o constituem e, assim, passamos a, paralelamente, vivenciar um pouco daquilo que existe dentro dela, o seu mundo.
Quanto mais livremente o outro puder falar sobre o seu mundo, mais poderemos conhecê-lo.
Para que possamos conhecê-lo mais correta e plenamente, precisamos dar ao outro as condições, para que o seu discurso possa, além de detalhado, ser também o mais verdadeiro.
Ele só nos poderá dar uma ideia precisa sobre si mesmo quando não formos, para ele, um obstáculo, um "desconhecido", alguém que fale uma linguagem diferente da sua, mas, pelo contrário, uma pessoa capaz de entender o seu discurso, de caminhar de mãos dadas com ele pelas alamedas do seu mundo interior. Em outras palavras, quando puder sentir em nós não um outro, mas sim uma extensão de si mesmo.
Para que tudo isso possa ocorrer, o terapeuta precisa acreditar no ser humano que está diante de si. Precisa gostar de se relacionar e dar condições para que aquele encontro, que está estabelecendo com essa pessoa diante de si, se processe construtivamente. É igualmente necessário que não fique preocupado com os significados teóricos de tais ou quais atitudes de seu cliente, mas que possa estar integralmente ali, ao lado dele, vivenciando aquele processo terapêutico, sem interferir na direção que venha a tomar.
Se, por um lado, podemos sentir a fundamentação humanista na teoria rogeriana, por outro, também podemos perceber o quanto ele se preocupou em objetivar os achados subjetivos que surgem no decorrer do processo terapêutico. Assim, constatamos que a Psicoterapia Centrada no Cliente, na sua origem, se mostrou profundamente voltada para a pesquisa.
No enfoque rogeriano, objetivar o subjetivo foi uma tarefa razoavelmente superada, quando o comparamos com outros métodos terapêuticos, que, por vários motivos, se abstiveram do uso de recursos, tais como as gravações em fitas magnéticas e filmes. Na utilização desses recursos, métodos e técnicas especiais foram utilizados e permitiram que se estudasse o processo de uma forma muito mais precisa, dando àqueles que se interessavam por esse enfoque uma visão bem mais segura do método que utilizavam, e o que dele se poderia obter: seus limites e suas potencialidades.
Através dos achados em pesquisas, pode-se não somente confirmar a maioria das hipóteses norteadoras desta linha teórica, como também refutar muitas delas.
Muitas pesquisas continuam sendo realizadas e, com isso, o nível de confiabilidade da teoria aumenta.
Muitos conceitos foram alterados, outros novos surgiram e outros mais surgirão. Isso nos leva a mais um outro aspecto da característica da Psicoterapia Centrada no Cliente: É UMA TEORIA EM CONSTANTE EVOLUÇÃO, NÃO TERMINADA, NÃO CONCLUSA, NÃO DOGMÁTICA.
O fato de ser um construto teórico sempre em estudo, em constante pesquisa, evolução e transformação, parece-me muito coerente com as ideias do próprio Rogers sobre as pessoas que teriam alcançado um estágio de "plenitude de vida". Tais pessoas gozariam de um estado de fluidez, abertura para as experiências, etc., como veremos mais detalhadamente no capítulo IX.
A teoria rogeriana é uma teoria em mudança construtiva e permanente. Não é estática, não é fechada, não é fantasiosa, não se considera acabada e não é dúbia. Define-se, mostra-se e propõe-se a afirmar apenas aquilo sobre o que já sabe o suficiente, para assim proceder. Não nega as outras teorias, apenas acredita que existem várias formas de ajuda igualmente válidas, e que as pessoas têm o direito de acreditar naquela teoria que realmente as ajude mais, que sintam mais condizentes com a sua maneira de ser, com seus valores pessoais.
Com relação ao campo de aplicação da PCC, creio que seria interessante esclarecer que, DA PRÁTICA TERAPÊUTICA, ORIGINOU-SE UMA TEORIA DA TERAPIA E, DESTA, UMA TEORIA DAS RELAÇÕES HUMANAS.
A hipótese principal que mostra a importância do relacionamento terapeuta-cliente, como falei acima, passou a ser a mesma para o processo de relacionamento "não terapêutico", ou melhor dizendo, no relacionamento "fora do gabinete de consulta".
Apenas para relembrar o que escrevi sobre a hipótese principal, veja:
“O potencial de crescimento de qualquer indivíduo tende a ocorrer num clima de relacionamento onde uma pessoa (considerada auxiliar) está experienciando e comunicando, como um indivíduo real, seu apreço e uma profunda compreensão não julgadora” (ROGERS, 1974).
Esta hipótese se aplica a qualquer situação onde o relacionamento humano construtivo for desejado. A partir daí, podemos perceber que as áreas da Educação e da Administração, os trabalhos com grupos e tantas outras atividades poderão ser beneficiadas com as propostas da teoria rogeriana. Os relacionamentos professor-aluno, empregado-patrão, marido-esposa, e todos os demais estão sujeitos a uma hipótese básica sobre o relacionamento humano, proposta por Rogers.
BREVE HISTÓRICO
Embora muitas ideias de diversas pessoas tenham influenciado Rogers, coube a ele o papel principal de sintetizar essas várias fontes, criando algo realmente novo, que foi a PCC.
Sua teoria tomou forma entre 1938 e 1950.
Antes de 1940, Rogers já havia percebido a importância do relacionamento e da confiança em seus clientes, como ficou muito bem documentado em um artigo escrito para o Journal of Humanistic Psychology. Nessa revista, ele mostra-nos também como, em 1940, em Ohio, na condição de professor, quando tentava ensinar suas opiniões sobre o trabalho clínico, começou a perceber que “(...) estava dizendo algo novo (talvez até original) em relação ao aconselhamento e à psicoterapia” (ROGERS, J.H.P.,1974). Nessa ocasião, lançou o livro Psychoterapy and Counseling,recentemente traduzido para nossa língua pela Moraes Editores, 1973.
Entre 1945 e 1950, esteve ligado ao Centro de Aconselhamento da Universidade de Chicago e suas ideias foram ainda mais elaboradas.
Entre 1940 e 1950, as ideias de Rogers foram identificadas, basicamente, como uma forma de Counseling e Psicoterapia denominada "não diretiva".
Um outro aspecto importante na história da PCC foi, sem dúvida, o crescente uso de gravações, que ajudaram nas pesquisas e nas observações mais sistematizadas, e deram, como consequência, origem a uma preocupação mais acentuada com as técnicas. Tanto assim que, nessa época, as "técnicas não diretivas" passaram a ser marcas identificadoras desse novo enfoque teórico.
Gradativamente, esta concepção (técnica não diretiva) foi sendo alterada, não só pelas experiências e pelos achados em pesquisas, os quais foram mostrando a inadequação do termo, como também por ela dar margem a mal-entendidos e questionamentos, tais como: O terapeuta rogeriano é não diretivo? Em que medida pode haver não direção? O que se entende por não diretividade?
Outra coisa que, com o passar do tempo, precisou ser mudada foi a palavra paciente. Inicialmente, o uso dessa palavra era comum, mas o sentido dela dava margem a vários equívocos, provavelmente por seu uso estar ligado à clinica médica e associado à figura de uma pessoa passiva , obediente, que recebia do clínico as orientações sobre como se cuidar e encontrar a melhor maneira de superar sua "doença".
Em lugar de paciente, surge a palavra cliente, que sugeria uma participação mais ativa da pessoa no seu processo terapêutico.
A denominação de terapia não diretiva deu lugar então à PCC, Psicoterapia Centrada no Cliente.
Uma explicação melhor sobre essa mudança pode ser encontrada no livro Psicoterapia Centrada no Cliente (ROGERS, C.R., Buenos Aires: Editorial Paidós, 2ª. ed.,1969), e também no Psicoterapia e Relações Humanas (ROGERS, C. R. & KINGET, G.Marian , Madrid: Ed.Alfaguara,1967).
No prólogo desse segundo livro sugerido, Mariano Yela nos diz:
“Queiramos ou não, nos dirigimos uns aos outros. Uma das coisas, segundo penso, mais claras, é a enorme influência de Rogers, sua personalidade, sua maneira de ser peculiar ao conduzir as sessões clínicas – exercem?? sobre seus pacientes. É inútil querer pular sobre a própria sombra. A psicoterapia é, inevitavelmente, técnica e diretiva, o que não significa dizer que tenha igual valor qualquer técnica nem qualquer tipo de direção.
“‘Não dirigir’ quase sempre sugere ausência de liderança, liberdade não controlada, inexistência de objetivos, laissez-faire, desinteresse, etc., e ‘terapia não-diretiva’, logicamente, teria que sugerir algo semelhante. Assim sendo, poderíamos dizer que, nem tanto por necessidade de esclarecer as críticas levantadas em decorrência de uma terminologia ambígua, mostrou-se cada vez mais necessário operacionalizar os conceitos teóricos desta terapia.
“A opção pela denominação Psicoterapia Centrada no Cliente (ROGERS, 1951) realmente está mais próxima do que ocorre nos encontros terapêuticos. Porém ainda não satisfaz plenamente e, como diz o próprio Rogers, será usada enquanto não se encontrar outra melhor.”
Ainda sobre a denominação "não diretiva", diz-nos Kinget (ROGERS & KINGET,1967):
“De um ponto de vista exterior, não direção e permissão total se parecem muito. Porém, em sua intenção e em sua especificidade, não há nada em comum com elas. A não-direção, tal como o rogeriano a entende, se inspira numa atitude incondicionalmente positiva, enquanto permissão total se reduz essencialmente a indiferença e, inclusive, a uma tolerância parecida com o desprezo.”
Um outro mal-entendido, que decorre do que falamos acima, e que levou muitos a fazerem (segundo penso) as tão conhecidas piadas sobre a terapia e o terapeuta rogeriano, refere-se à ideia de permissão total junto ao cliente:
“Devido a isso, o terapeuta rogeriano é erroneamente descrito, com frequência, como‘inativo’. Entretanto, é bom que se entenda este termo num sentido oriental, quer dizer, significando não ausência de atividade, senão ausência de atividade intervencionista” (ROGERS & KINGET, 1967).
Ainda sobre este assunto, a mesma autora citada acrescenta um esclarecimento da maior importância:
“É verdade que, em certo sentido a não direção não existe. É importante que se distinga entre NÃO DAR DIRETIVAS e NÃO TER DIREÇÃO, ou mais especificamente entre DIRETIVAS E DIREÇÃO. O termo ‘diretivas’ implica em conselhos, instruções, sugestões, etc., enquanto que ‘direção’ sugere a ideia de orientação ou de significação.”
O terapeuta rogeriano não se propõe a dar diretivas. Todavia, existe um conhecimento adquirido, uma experiência pessoal, um valor implícito em todo terapeuta (no que ele crê, o que está fazendo, porque o faz, para que o faz, etc.). Tudo isso, obviamente, implica numa "direção", num algo que esquematiza e dá sentido e forma ao encontro terapêutico.
O terapeuta rogeriano não é alguém que "vai a reboque" do cliente. Ele atua junto, participa, vive a experiência do cliente, vive sua própria experiência naquele momento, centraliza-se no cliente, mas também em si mesmo, nos momentos tão importantes de autoatenção, sobre a qual falaremos, com mais detalhes, mais adiante.
Por outro lado, o processo terapêutico é determinado por alguém que vem voluntariamente procurar ajuda, que quer participar ativamente de seu próprio crescimento, que conta com o terapeuta como um auxiliar seu na busca de si mesmo. Assim, cliente e terapeuta, ambos, são ativos. Não caberia, portanto, o termo paciente que, comumente, caracteriza alguém inativo, que espera a intervenção de algo ou alguém de fora. Por isso, tanto a denominação não diretiva, assim como paciente deram lugar a uma terminologia mais abrangente e mais próxima da realidade do que ocorre na relação terapêutica rogeriana: CENTRADA NO CLIENTE.
Foi em 1951, após todo um período de pesquisas, reformulações teóricas e experimentais, que surgiu a denominação PSICOTERAPIA CENTRADA NO CLIENTE, ou CCT, em inglês, Client Centered Therapy, que, como se pode observar, foi adotada para evidenciar que o foco se dirigia para o "mundo fenomenológico" do cliente.
Nos anos 50, houve um grande número de pesquisas, uma verdadeira onda de entusiasmo neste campo que desabrochava com grandes perspectivas. A partir delas, começou a surgir uma teoria bem mais completa e sistematizada. Muitas hipóteses foram confirmadas, algumas refutadas, outras dependiam de novas pesquisas, enfim, tudo isso levou as idéias, lançadas no livro Client Centered Therapy, que já eram bastante sistematizadas, a uma prova ainda mais sofisticada, a fim de garantir, mais ainda, a validade de certas hipóteses contidas naquela obra.
Por volta de 1959, chegou-se a uma sistematização rigorosa dos achados das pesquisas, surgindo, daí, uma sólida teoria da terapia e da personalidade. Reconheceu-se, além disso, que ela não era simplesmente aplicável à prática psicoterápica, mas um enfoque para a compreensão de todos os tipos de relacionamento humano.
Por essa época foi lançado o livro TORNAR-SE PESSOA (ROGERS,1961), que, inicialmente, se destinava a psicólogos e profissionais de campos afins. Inesperadamente, houve uma receptividade muito grande do público em geral, o que possivelmente tenha feito com que esse livro de Rogers seja um dos mais conhecidos.
Nos anos 60, estendeu-se mais o campo de pesquisa e enfatizaram-se as experiências desse enfoque junto a um campo de observação muito maior. Esquizofrênicos crônicos fizeram parte de um amplo plano de pesquisa. Os resultados desse programa foram publicados, em 1967, por Rogers e vários colaboradores, no livro Person to Person.
Alguns anos depois, foi desenvolvido um projeto junto a grupos de trabalhadores, professores, executivos, etc. Os resultados dessas experiências foram publicadas em duas obras, uma, em 1969, Liberdade para Aprender, e outra, em 1970, Grupos de Encontro.
Este breve histórico da PCC (até a década de 70) poderia ser sumariado da seguinte forma:
- no início, alguns de seus conceitos pareciam dúbios e causavam confusão para o
leitor;
- no final, tivemos uma teoria bastante estruturada e bem definida;
- iniciou-se como técnica e, gradativamente, afastou-se dela;
- no começo, counseling e terapia;
- no final, uma abordagem ampla do relacionamento humano;
- do trabalho individual (terapia e counseling), passou a abranger e a preocupar-se com o trabalho intensivo com grupos de pessoas.
Sofreu influência dos filósofos, dos psicanalistas e dos biólogos, e chegou a um posicionamento bem original e, muitas vezes, distante de tantos quantos a influenciaram.
Partindo de um modelo inicial de pesquisa científica, que a identificava com as ciências naturais, chegou à formulação e à aplicação de uma metodologia que lhe era mais própria e que lhe dava condições de compreender, mais corretamente, o significado dos dados que surgiam no processo terapêutico, através de recursos que criavam meios de se objetivarem os fatos subjetivos.
Finalmente, parte do conceito de "paciente" e chega ao de "cliente", termo esse que “(...) foi adotado para indicar que este não era um modelo médico, prescritivo ou manipulativo” (ROGERS,1974).

3- ORIGENS E CARACTERÍSTICAS

3-1- ORIGENS
Não se pode reconhecer, nas ideias contidas na teoria rogeriana, a marca definida de um único pensador que pudesse ter influenciado Rogers. Ele não teve um MENTOR.
Nas propostas da PCC, podemos sentir as influências de inúmeros pensadores, de várias épocas.
A própria formação de Rogers foi de importância capital na origem dessa abordagem.
Suas experiências no Teachers College (Universidade de Columbia) levaram-no a entrar em contato com as ideias de John Dewey, através de William A. Kilpatrik, e, ao mesmo tempo, com a preocupação científica que havia ali.
No Teachers, havia uma cobrança do rigor científico. Ali, enfatizavam-se a pesquisa, a utilização do método hipotético-dedutivo e a preocupação com definições operacionais.
Durante esse mesmo período, Rogers sofreu outra influência importante. Em seu internato no Institute for Child Guidance, entrou em contato com o pensamento freudiano, que era o norteador daquela instituição.
A essa altura, já se pode sentir uma mistura, digamos assim, heterogênea de influências freudianas, um pensamento educacional progressista e uma metodologia científica, num trabalho basicamente de psicologia aplicada.
Anos mais tarde, em Philadelphia, uma outra experiência será marcante na formação de Rogers. Ele entra em contato com as ideias de Otto Rank. Este, discípulo de Freud,enfatizava alguns pontos sobre a terapia, que estão muito próximos da PCC. Acreditava que "A terapia é, para o cliente, algo além de um canal para as teorias intelectualizadas do terapeuta. ...É importante que o cliente expresse sua própria vontade, tome o comando de sua própria vida e crie sua própria realidade.” (RANK,1936). Veremos a proximidade dessas ideias com a PCC, a seguir.
Se tentarmos fazer uma relação de tudo e todos que influenciaram Rogers, logo de início, verificaremos a impossibilidade de tal empreendimento. Recebeu influências de várias pessoas, que possuíam opiniões completamente diferentes. Entretanto, não se prendeu a nenhuma teoria "acabada" ou dogma. Sua teoria chegou a ser elaborada através de exames e reexames, das mudanças e das experiências vividas junto a seus clientes.
Rogers e seus colegas estudaram, pesquisaram, observaram e puderam chegar a algumas "conclusões" sobre o processo terapêutico. Sua teoria não cresceu, nem nasceu num gabinete, através de especulações somente teóricas. Nasceu de uma prática, de sua própria experiência como terapeuta.
A PCC, atualmente, está bastante distanciada, em muitos aspectos, das obras iniciais. Para se perceber tal fato, basta lermos e compararmos, por exemplo, sua obra de 42 com a de 51, a de 51 com a de 67, etc. Podemos notar, fazendo isso, que sempre há, nas obras mais recentes, a preocupação incansável com a pesquisa.
Quando se leem as obras de Rogers, sente-se que há um paralelismo entre suas ideias e outras linhas de pensamento, tais como a fenomenologia europeia, a filosofia existencial de Kierkegaard e Martin Buber, as teorias da Gestalt (principalmente as ideias de Kurt Lewin), como também se percebem alguns pontos em comum com o pensamento Zen (A experiência pessoal é a principal via de aprendizagem) e com Lao-Tsé (Se eu evito impor às pessoas, elas se tornam elas mesmas).
É importante que se destaque, mais uma vez, que, para essa teoria, "o modelo médico nunca foi visto como ideal a ser aplicado ao relacionamento interpessoal”.

3-2- CARACTERÍSTICAS MARCANTES DA PCC
Até aqui, tentei fazer um breve histórico da teoria desenvolvida por C. R. Rogers. Minha preocupação foi dar ao leitor uma noção de como foram criadas as condições para que Rogers chegasse a formular sua teoria, tal como a conhecíamos até a data da publicação do presente documento.
Indiscutivelmente, há muita coisa em comum entre a PCC e outras terapias. Entretanto, no conjunto, ela se estrutura de forma bem peculiar.
As características que definem esta teoria como CC, e não como outra qualquer, serão, agora, apresentadas. Possivelmente a partir disso, o leitor poderá fazer um quadro comparativo com outras correntes teóricas que ele conheça e, dessa forma, conseguirá definir mais precisamente o que chamamos de PCC.
1ª Característica
A PCC se fundamenta numa hipótese sobre as atitudes do terapeuta.
“Certas atitudes do terapeuta constituem as condições necessárias e suficientes para a efetividade terapêutica” (ROGERS, 1975).
2ª Característica
Um outro aspecto marcante diz respeito à função do terapeuta.
“Estar imediatamente presente e acessível ao seu cliente, atento à sua ‘experienciação’, momento a momento, no relacionamento com ele” (ROGERS, 1975).
3ª Característica
Quanto ao que se focaliza na relação.
“Há uma focalização contínua sobre o mundo fenomenológico do cliente” (ROGERS, 1975).
4ª Característica
Sobre o processo terapêutico,
“(...) O que se espera que ocorra a partir de um relacionamento terapêutico efetivo? Tal processo se caracteriza por uma mudança na maneira de experienciar do cliente a qual consiste num aumento crescente da habilidade para viver mais plenamente o momento presente.”
5ª Característica
Uma motivação de base positiva,
“Gradativamente foi-se constatando uma qualidade que existe em TODO SER VIVO. Em todos eles se observa uma tendência a uma auto-atualização. O organismo humano não foge à regra. Essa qualidade (tendência atualizante) passa a ser uma força motivadora em terapia.”
6ª Característica
Ênfase maior no processo de mudança da personalidade.
“Neste enfoque teórico observa-se uma ênfase maior no processo de mudança da personalidade do que na sua estrutura.”
7ª Característica
Igualmente é enfatizado o espírito de pesquisa.
Constantemente são feitas pesquisas, a fim de se conseguir uma aprendizagem mais sólida sobre psicoterapia.

8ª Característica
A hipótese de que os princípios da PCC são aplicáveis a uma gama de situações e distúrbios.
Assim, foi e é aplicada e pesquisada entre "psicóticos", "neuróticos" e "normais".

9ª Característica
Ênfase na relação interpessoal
“A PCC vê na psicoterapia uma semelhança com todo o relacionamento interpessoal construtivo.”
10ª Características:
- a importância da experiência na formulação teórica;
- a preocupação em construir toda formulação teórica a partir da experiência.

11ª Características:
- os valores filosóficos e a prática;
- da prática da psicoterapia, chegou-se a uma série de valores filosóficos.

SÍNTESE
Como mencionamos no início deste item, o leitor poderá observar muitos pontos semelhantes entre a PCC e outros enfoques psicoterápicos. Entretanto, reconhecerão, também, o distanciamento de algumas de suas características, que, realmente, a diferenciam de outras orientações teóricas.
No desenvolvimento deste trabalho, teremos oportunidade de esclarecer algumas das características que acabamos de apontar.

4 - O RELACIONAMENTO TERAPÊUTICO

4-1- Considerações Gerais
Há alguns anos, venho entrando em contato com estudantes de Psicologia, interessados na prática e no estudo de psicoterapia.
Lidar com eles tem sido uma experiência muito enriquecedora para mim, e esse contato tem- me dado a oportunidade de verificar uma hipótese que, a cada dia que passa, mais e mais se confirma. Refiro-me ao relacionamento terapêutico e à sua capital importância no sucesso da terapia.
Poderíamos formular essa hipótese da seguinte maneira:
“O sucesso da terapia não depende primariamente do treinamento técnico ou da qualificação do terapeuta, mas sim da presença, nele, de certas atitudes” (ROGERS,1975).
Por outro lado, esta hipótese se completa com a seguinte afirmativa:
“Não basta que haja tais atitudes. Elas precisam ser
comunicadas ao cliente e percebidas por esse.”
Poderíamos juntar essas duas afirmações e fazer delas uma hipótese bem mais ampla:
“Se o terapeuta apresenta determinadas atitudes, se ocorrer uma comunicação dessas por parte dele, e uma recepção das mesmas por parte do cliente, então, este fato se tornará um determinante fundamental no processo terapêutico e de mudanças construtivas da personalidade.” (ROGERS,1975).
O que tenho observado no contato com os estudantes, ou com os recém-formados, não é tanto uma incapacidade pessoal para se relacionarem com as pessoas que atendem, mas, sim, uma maneira deformada de estabelecerem tais relacionamentos, muitas vezes em decorrência de informações equivocadas adquiridas nas salas de aula de suas universidades.
Os Cursos de Psicologia parecem muito mais voltados para a informação do que para a formação dos futuros terapeutas. Assim sendo, não é raro o aluno aprender superficialmente sobre várias técnicas e teorias e ter pouca oportunidade de aprender sobre o seu "objeto de estudo" – o ser humano – através da vivência concreta de relacionamentos humanos profundos.
Talvez, este seja um dos motivos principais das dificuldades apresentadas pelos alunos nas supervisões de suas práticas clínicas. Eles chegam aos supervisores cheios de teorias, de rótulos, de hipóteses, de dogmas e, com tudo isso, tentam ser "naturais" e plenos no contato com seus clientes. Não conseguem. Tentam compreendê-los. Não conseguem. Tentam ouvi-los, o mesmo acontece. Tudo indica que estão presos a rótulos e não conseguem perceber o OUTRO de forma não preconceituosa.
Essa postura dos estagiários, com padrões rígidos de percepção, dificulta a sua prática como terapeutas, principalmente se se estiverem preparando para um uma atuação profissional num enfoque rogeriano. Nessa abordagem, o relacionamento humano transparente, congruente e autêntico é básico para se pôr em marcha uma psicoterapia bem sucedida.
Inicialmente, os alunos tentam utilizar os conceitos rogerianos, como se fossem instruções técnicas. Como o resultado que costumam obter – usando esta estratégia – não costuma ser positivo, é frequente surgirem dúvidas neles em relação à validade da PCC. Alguns começam a ter uma percepção mais clara sobre o quanto esse enfoque é complexo e exige do terapeuta uma mudança enorme, no que diz respeito a muitas convicções tradicionais, relativas ao seu papel profissional.

4-2- AS ATITUDES DO TERAPEUTA
O que escreveremos, a seguir, constitui quase que uma tradução bem livre do que Rogers escreveu para o Comprehensive Textbook of Psychiatry (CTP, 1974).
Naquele trabalho, Rogers conceitua com mais detalhes o que considera como atitudes do terapeuta.
“A experiência clínica e as pesquisas nos mostraram, passo a passo, que as atitudes mais importantes para o sucesso da terapia são três:
1ª A autenticidade do terapeuta ou CONGRUÊNCIA.
2ª A ACEITAÇÃO POSITIVA INCONDICIONAL do terapeuta em relação a seu cliente.
3ª Uma sensível e acurada COMPREENSÃO EMPÁTICA do cliente pelo terapeuta.
Com relação às três atitudes que mencionamos, temos que observar o seguinte:
a- A experiência tende a nos levar a crer que as condições acima estão na ordem de importância;
b- Assim sendo, a congruência é a mais importante das três atitudes;
c- As outras duas são provavelmente menos importantes;
d- Todavia, a terapia ocorre de forma mais efetiva, quando todos os três elementos estão presentes em alto grau.”
Passaremos, agora, a discutir cada um desses aspectos isoladamente. Para isso, preferimos apresentá-los na ordem inversa.

COMPREENSÃO EMPÁTICA
Das três atitudes necessárias ao terapeuta, a empatia é a mais facilmente adquirível, através de um treinamento específico, contrariamente às outras duas.
“Compreensão Empática corresponde a um ‘estar em casa’ no universo do cliente” (ROGERS, 1974).
Mais adiante, Rogers completa:
“É uma sensitividade imediata no aqui e agora. Sentir o mundo não simbolizado do cliente como seus significados pessoais, próprios, COMO SE fora o do próprio terapeuta, mas sem nunca esquecer da qualidade do ‘COMO SE’” (ROGERS,1974).
Observa-se, aqui, uma aproximação com alguns conceitos da fenomenologia, principalmente quando, na mesma obra, Rogers diz que:
“(...) compreender o mundo fenomenal do cliente requer do terapeuta mais do que meramente a compreensão de suas palavras.”
Compreender empaticamente implicaria num "estar na pele" do outro, imergir no mundo de significados complexos que comumente são expressos pelo cliente.
Por outro lado, não basta que o terapeuta compreenda, neste nível, o discurso do seu cliente. É imprescindível que o cliente perceba tal compreensão.
Não raramente, se o terapeuta satisfizer às condições citadas acima, seus comentários conterão dados que irão além daquilo de que o cliente tem plena consciência.
Muitos dados que estão em áreas limítrofes de sua consciência são postos à luz. Seria como uma
“(...) compreensão do que o cliente deseja significar, incluindo-se aí aqueles significados ainda não plenamente concebidos na consciência” (ROGERS,1974).
Quando isso ocorre, faz-se brotar uma condição, para que o cliente amplie sua compreensão de si mesmo e se permita entrar em contato com um maior número de experiências atuais.
É como se surgisse no cliente a sensação de "poder compreender-se", advindo daí um sentimento de segurança. Alguém me compreende profundamente – diz o cliente – e eu posso seguir explorando-me, pois não estarei só nesta caminhada.
As experiências e as sensações que ocorrem dentro dele podem, agora, ser experimentadas, cada vez mais, a nível organísmico.
ORGANISMO, para Rogers, corresponde ao seguinte:
- o organismo é o indivíduo total;
- o campo fenomenológico é a totalidade da experiência;
- o SELF, que é uma parte diferenciada do campo fenomenológico, consiste
num conjunto de percepções conscientes e de valores do "EU" e do "MEU".

O organismo possui as seguintes propriedades:
- Reage ao campo fenomenológico como um todo organizado, a fim de satisfazer
suas necessidades.
- Possui um motivo básico: o de realizar-se, manter-se e melhorar.
- Pode simbolizar suas experiências, a fim de se tornarem conscientes, ou pode
negar-lhes a simbolização, para que permaneçam inconscientes, ou, ainda,
ignorá-las.
Nota: Chamamos de "experiência" tudo que acontece dentro do organismo, em qualquer momento, inclusive os processos fisiológicos, impressões sensoriais e atividades motoras. No entanto, a maioria das experiências inconscientes pode transformar-se em conscientes, quando isso for necessário. Na terminologia psicanalítica, elas existem não tanto no inconsciente, mas no pré-consciente. O conhecimento interior, segundo Rogers, origina-se naquilo que pode ser simbolizado; é um atributo da figura do campo fenomenológico, cujas bases são mais ou menos inconscientes.
O organismo reage ao campo, conforme o percebe e o experimenta.
“O organismo reage ao campo fenomenológico como um todo organizado, no qual a alteração de uma parte produz mudança em outra” (HALL-LINDZEY, Teorias da Personalidade. São Paulo/Brasil: Ed.Herder, 1966, pp. 521-22).
Quando a compreensão vem unida à aceitação, surge uma experiência que é sentida pelo cliente como profundamente rica. A segurança que isso gera dentro dele é muito grande, pois se sente não só compreendido, mas, além disso, aceito. A aceitação torna-se mais válida e poderosa, quando o cliente percebe que o seu discurso está sendo plenamente compreendido pelo terapeuta.
No momento em que o cliente experimenta a aceitação associada à compreensão, surgem:
a- uma segurança maior para aprofundar a exploração de suas vivências e do seu autoconceito;
b- uma sensação do tipo "Parece tudo tranquilo, quando me vejo.
Ocorrendo a e b, então, há um caminhar mais efetivo na exploração de si mesmo. Não há mais tanto medo. O cliente parece sentir:
“Esta tentativa para chegar a um novo EU emerge, na medida em que me percebo compreensível e aceitável para o meu terapeuta.” (ROGERS,1975).
Rogers procura chamar atenção, aqui, para a "finalidade" (se fosse válido dizer assim) da compreensão empática. Ela não visa ser um instrumento para o terapeuta, com o propósito de diagnosticar ou interpretar.
A experiência de "ser compreendido" tem, ela mesma, uma poderosa influência no crescimento daquele que a estiver sentindo.
Quanto mais empaticamente uma pessoa for compreendida, maior será a ajuda que ela receberá na compreensão de si mesma.
Constata-se, na prática, que, mesmo não se conseguindo uma compreensão em nível profundo, o simples fato de se tentar compreender o outro pode ser, por si mesmo, de grande ajuda.
Esta situação é muito comum ocorrer com os terapeutas iniciantes. Eles ficam ansiosos e tensos. Ainda estão envolvidos com muitas teorias. Ouvem, mas não escutam. Perdem, constantemente, o campo de referência do cliente. Nesse tumulto todo, uma coisa que geralmente persiste é a preocupação em entender o que outro quer dizer. Nem sempre conseguem, pois o foco da atenção oscila constantemente entre dois mundos: o do cliente e o do novo terapeuta. A despeito disso, a vontade de entender o outro pode, para surpresa do estagiário, ainda assim, determinar o surgimento de um encontro construtivo com efeito terapêutico.
Ainda em relação à compreensão empática, a prática e a pesquisa têm mostrado o valor altamente significativo dessa tentativa de compreensão nos atendimentos a "psicóticos"
(Veja GENDLIN et al., 1967).
Para o "psicótico", é importante sentir que alguém está tentando compreendê-lo em suas afirmações por vezes bizarras, confusas e incertas, e que, mesmo assim, elas são válidas.
Gendlin, em seu trabalho escrito para o livro Person to Person (1967), intitulado Tendências da Terapia Centrada no Cliente com Esquizofrênicos, deixa claro o que tentei mostrar acima. Diz ele:
“(...) comumente, quando dirigimos as palavras à experienciação, ao invés de dirigi-las ao conteúdo verbal, veremos que a nossa imaginação não foi precisa, mas o fato de se reagir a essa experienciação sempre presente estabelece a possibilidade de comunicação dos sentimentos mais profundos dos quais as verbalizações emergem.”
Para ficar mais claro e mostrar os níveis em que, teoricamente, pode ocorrer a compreensão empática, daremos alguns exemplos.
Rogers (1974/75) propõe três níveis de compreensão e de sua comunicação ao cliente.
No primeiro nível, haveria uma compreensão apenas superficial daquilo que o cliente expressou. Quando isso ocorre, é comum o cliente responder: "De fato. Isto é exatamente o que lhe disse". Podemos verificar que não houve, possivelmente, através dessa compreensão, uma ajuda que produzisse um avanço significativo na autoexploração do cliente.
No segundo nível, há uma comunicação efetiva de uma compreensão empática, e a reação do cliente a ela poderia ser comparada a: "Isso é absolutamente certo. Eu não supunha que alguém pudesse compreender o que realmente sinto. Agora eu desejo falar-lhe algo mais”.
No terceiro nível, o terapeuta é excepcionalmente efetivo e capta os sentimentos encobertos na mensagem que o cliente traz a nível consciente. Neste caso, a reação do cliente corresponderia aproximadamente a:
1º - inicialmente, uma pausa e uma apreciação gradativa daquilo que o
terapeuta lhe disse;
2º - surgem, depois, verbalizações como: "Sim. Talvez seja isso que estive
dizendo. Sim eu acho que é certo! Nunca havia pensado nisto até agora
mas isto é o que senti e experimentei”.
Quando este terceiro nível ocorre, podemos dizer que o terapeuta ajudou efetivamente o cliente a se mover para além dos limites de sua consciência, para os aspectos desconhecidos de si mesmo. Um exemplo muito bom disso pode ser lido no livro Tornar-se Pessoa (ROGERS, Ed. Moraes, 1970, p.-93).
Num trabalho escrito para o The Counseling Psychologist, volume 5, número2, de 1975, intitulado Empathic: An Unappreciated Way of Being, Rogers mostra as mudanças sofridas nas definições de Empatia. Nesse documento, apresenta-nos as definições do que seria a empatia numa escala de oito graus.
No primeiro grau de empatia teríamos:
“O terapeuta parece completamente inconsciente até mesmo dos sentimentos mais claramente manifestos do cliente. Suas respostas não são adequadas ao clima e ao conteúdo dos sentimentos do cliente e não há nenhum tipo de empatia ou de qualquer previsão. O terapeuta pode estar chateado ou desinteressado, ou até mesmo dando conselhos ativamente, mas não está comunicando e dando-se conta dos sentimentos atuais do cliente.”
No oitavo grau de empatia (máximo), teríamos:
“O terapeuta interpreta com precisão todos os sentimentos que o cliente concebe no momento. Além disso, ele põe a descoberto as áreas de sentimentos mais profundamente escondidas do cliente, enunciando significados da experiência do cliente dos quais o cliente quase que não se consegue dar conta. O terapeuta se envolve em sentimentos e experiências dos quais o cliente dá apenas algumas ‘pistas‘, e isto ele (o terapeuta) faz com sensibilidade e precisão. Os conteúdos que vêm à tona podem ser novos, mas não são estranhos. O terapeuta comete erros nesse oitavo estágio, mas esses erros não carregam o seu sentido comum, eles se recobrem do caráter de tentativa de resposta. Além disso, o terapeuta percebe esses erros facilmente e, de pronto, muda suas respostas dando a entender que consegue ver mais claramente aquilo que se está falando, do que é mais almejado nas explorações do próprio cliente. O terapeuta demonstra uma solidariedade com o cliente, numa tentativa de exploração por ensaio e erro. Seu tom de voz reflete a seriedade e profundidade da sua maneira empática de abordagem.”
Um terapeuta, por mais hábil que seja, não consegue, durante uma entrevista inteira, ser compreensivamente empático ao máximo. Sua capacidade de empatia oscila, como se pode observar na gravação da entrevista de Mrs. Oak (OBP,1993). Ela pode ir do nível 1 ao 3 (ou, como vimos acima, ao 8). Entretanto fica evidenciado que, quanto mais sua atuação atingir um nível mais elevado, o aprofundamento da entrevista também seguirá essa tendência.
Concluindo:
“A empatia é adquirível como o treino, todavia o ‘sucesso’ da terapia não pode ser baseado somente no treino técnico ou na capacidade do terapeuta, mas sim na presença de certas atitudes que o terapeuta possua” (ROGERS,1974).

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Veja segunda parte deste texto clicando no link   http://www.jlbelas.psc.br/meustextos.php?var=meustextos&op=texto&id=35 

Veja a terceira parte deste texto clicando no link http://www.jlbelas.psc.br/meustextos.php?var=meustextos&op=texto&id=45

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