TEXTO - Introdução a uma Psicoterapia Centrada na Pessoa ( parte III)

02/05/2010 - Continuação do texto Introdução a uma Psicoterapia Centrada na Pessoa (parte II) (337 visualizações)
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X - TEORIA DA PERSONALIDADE

Introdução

A personalidade é a matéria-prima com a qual o psicoterapeuta trabalha. Compreender bem a natureza dessa "matéria-prima" parece ser indispensável para que se possa entender o processo que chamamos de Psicoterapia. Por isso, ao entrarmos neste tema, iniciaremos pela conceituação de alguns termos que utilizaremos, ao falarmos sobre a teoria da personalidade que nos propomos a apresentar aqui.

Conceitos Básicos

"Organismo"

Este conceito se refere à ideia do indivíduo como um todo. Organismo corresponde, portanto, ao indivíduo total. O indivíduo, a pessoa, reage ao campo fenomenológico como um todo. Sua motivação básica é realizar-se, manter-se e melhorar.

Simboliza, ou não, suas experiências: simboliza, nega ou ignora.

- Quando simboliza, a experiência da pessoa pode ser percebida claramente a nível de sua consciência.

- Quando nega, a experiência não chega a entrar no campo da consciência ou, se por algum motivo é inevitável chegar a ela, surgem distorções que modificam integralmente o verdadeiro significado do que foi vivenciado pelo indivíduo.

- Quando ignora, as experiências nem chegam a sofrer distorções como na negação. É como se elas simplesmente não tivessem ocorrido.

"Campo fenomenológico"

Chamamos de campo fenomenológico à totalidade da experiência. É o campo – o contexto – no qual as experiências acontecem. Tais experiências podem ser conscientes, o que corresponderia àquelas que podem ser simbolizadas; ou podem ser inconscientes, ou seja, não simbolizadas.

Self

É o conceito nuclear da teoria da personalidade que ora lhes apresento.

É um conjunto organizado e mutável de percepções que se referem ao indivíduo. Corresponde às características, aos atributos, aos valores e às relações que o sujeito reconhece como descritivos de si mesmo e que percebe como dados de sua identidade.

O self estabelece a interação Organismo/Meio.

Introjeta ou distorce valores dos outros.

Procura conseguir consistência, o que faz com que o organismo reaja de modo condizente com o self. Por isso, as percepções não condizentes com ele são percebidas como ameaçadoras.

"O self pode mudar como resultado da maturidade e da aprendizagem".

 

AS CARACTERÍSTICAS DAS CRIANÇAS

Vejamos, agora, como esses conceitos, apresentados acima, se entrelaçam na formação da personalidade.

Veremos, também, como surgem os desajustes a nível da personalidade e sua correlação com o modo como o Self de uma pessoa foi construído ao longo da sua história de vida.

O Self começa a ser construído – concretamente – a partir do nascimento de uma criança. Por isso, focalizaremos este ponto a partir daqui.

Desde que começou a surgir o interesse pelo estudo de crianças, até hoje, não há divergência quanto ao fato de que ela vive suas experiências como realidade e ninguém melhor do que ela é capaz de apreender sua realidade

Há, nela, uma tendência a "atualizar" as potencialidades do seu organismo e ela reage ante a realidade em função desta tendência à atualização, que corresponde a um esforço constante de sua necessidade de atualização.

Em sua interação com a realidade, a criança funciona como um "todo" organizado. Sua experiência é acompanhada de um processo contínuo de valoração. Atribui valor positivo às experiências que percebe como válidas para a preservação e a revaloração do seu organismo, e negativo às contrárias a essa. Tende a buscar as "experiências que percebe como positivas e evitar as que percebe como negativas".

OBS.: A criança vive num meio que, do ponto de vista psicológico, não existe mais senão para ela, em um mundo de sua própria criação. Ex: Uma pessoa boa estende os braços para a criança e ela fica com medo e chora.

O DESENVOLVIMENTO DO "EU"

Uma certa parte da experiência da criança se diferencia e é simbolizada na consciência. Tal parte corresponde à consciência de existir e de atuar como um indivíduo (experiência de EU).

Na interação com o ambiente, a consciência de existir aumenta e organiza-se cada vez mais para formar a noção de EU, que, como objeto de percepção, faz parte do campo da experiência total.

NECESSIDADE DE CONSIDERAÇÃO POSITIVA

À medida que se desenvolve a noção de EU e essa noção se exterioriza, desenvolve-se, também, o que chamamos de necessidade de consideração positiva, de aceitação de seu EU por parte das pessoas e por parte de si mesma.

Inicialmente, essa necessidade se baseia em inferências relativas ao campo de experiência dos outros. A criança necessita de aceitação, de ser apreciada, gostada...

Progressivamente, a satisfação dessa necessidade vai-se tornando bilateral, ou seja, o indivíduo gosta de satisfazê-la nos outros e gosta de obter a satisfação desta necessidade através dos outros.

Nas idades mais tenras da criança, ela está em contato com pessoas que são imprescindíveis para sua sobrevivência, inclusive física. Essas pessoas são consideradas como "pessoas-critério". São tão vitais para a criança que, quando demonstram uma consideração positiva por ela, podem converter-se numa força diretiva e reguladora mais forte do que o processo de valorização "organísmica". Explicando melhor, a tendência que move uma criança a valorizar suas experiências como boas ou más para ela, para seu crescimento, é organísmica, ou seja, é um processo interno, do seu organismo e, por isso mesmo, não precisa passar pela consciência ou por uma escolha "racional". Mas, quando uma "pessoa-critério" (pai, mãe, ou alguém que cumpra esse papel para ela) explicita uma opinião, um julgamento sobre a experiência que está sendo vivida por uma criança, comumente ela adota essa avaliação externa em detrimento da sua própria. A isso chamamos de "complexo de consideração".

 

DESENVOLVIMENTO DA NECESSIDADE DE CONSIDERAÇÃO POSITIVA DE SI MESMO

Aos poucos, a criança experimenta satisfações ou frustrações relativas ao EU, que podem ser sentidas independentemente de toda manifestação de consideração positiva dos demais. A isso chamamos de consideração positiva de si mesmo.

Tal necessidade é adquirida das associações de experiências relativas ao EU com satisfação ou frustração da necessidade de consideração positiva.

Como consequência, o indivíduo se converte em sua própria "pessoa-critério".

A consideração positiva de si mesmo tende a se comunicar ao conjunto das experiências que se relacionam com o EU, quer dizer, com a imagem do EU, por "generalização".

Dessa forma, se a criança faz uma avaliação do próprio eu como negativa, essa percepção se generaliza para o seu EU como um todo.

DESENVOLVIMENTO DE UM MODO DE VALORAÇÃO CONDICIONAL

Quando as experiências de si mesmo de um dado sujeito são julgadas por certas "pessoas-critério" como dignas ou não de consideração positiva, as percepções do sujeito em relação a si mesmo se tornam igualmente seletivas.

Segue-se, daí, que as experiências em relação ao EU podem ser buscadas ou evitadas. Passa-se a buscar somente aquelas que são dignas de consideração positiva. A valoração passa a ser condicional e deixa de ser organísmica, já que ser o que se sente como melhor para si mesmo talvez não lhe garanta a aceitação dos demais e de si próprio. A criança passa a introjetar valores externos, que lhe garantam a aceitação por parte dos demais.

Tal atitude surge por não existir mais uma consideração positiva incondicional para consigo mesma. Acredita-se que seja pouco provável que tal atitude possa existir plenamente.

DESENVOLVIMENTO DO DESACORDO ENTRE O EU E A EXPERIÊNCIA

Devido à necessidade de consideração positiva de si mesmo, o indivíduo percebe sua experiência em função das condições a que chegou a se submeter.

a- As experiências que estão de acordo com aquela necessidade são percebidas ou simbolizadas corretamente na consciência;

b- As experiências contrárias àquela necessidade são "selecionadas", "deformadas", para poderem ficar de acordo com ela ou, então, são "interceptadas";

Daí se segue que a experiência leva consigo elementos não identificados e que se referem ao EU e, por isso, nem todas as experiências simbolizam corretamente na consciência, nem se incorporam à noção do EU.

Com a percepção seletiva, estabelece-se certo estado de incongruência ou de desacordo entre o EU e a experiência, e aparece um certo grau de vulnerabilidade e de mau funcionamento psíquico. O indivíduo passa a não ser "sincero" consigo mesmo, com o significado "organísmico" de sua experiência.

OBS.: Tudo isso se produz involuntariamente, como um processo natural e trágico, iniciado na infância.

DESENVOLVIMENTO DE CONTRADIÇÕES NA CONDUTA

O conflito entre o EU e a EXPERIÊNCIA, tal como falamos acima, dá lugar a um conflito análogo a nível da conduta.

a- Certas condutas, que são conformes à noção do EU, mantêm, atualizam e revalorizam o EU, são corretamente simbolizadas na consciência.

b- Outras são deformadas para se fazerem de acordo (conformes) com o EU.

 

A EXPERIÊNCIA DE AMEÇA E O PROCESSO DE DEFESA

As experiências não conformes à estrutura do EU são reconhecidas ao nível de subcepção (discriminação sem representação consciente).

Se a experiência ameaçadora fosse simbolizada corretamente, ocorreriam:

a- a noção do EU perderia seu caráter unificado;

b- a necessidade de consideração de si mesmo ficaria frustrada;

c- um estado de angústia se apoderaria do sujeito.

Surgem, daí, os processos de defesa que impedem que se produzam esses acontecimentos perturbadores.

Assim, o processo de defesa consiste em:

a- uma percepção seletiva;

b- uma deformação da experiência;

c- uma interrupção parcial ou total de certas experiências.

Como decorrência das defesas, surgem:

a- uma rigidez perceptual (devido à necessidade de deformar certos dados da experiência);

b- uma simbolização incorreta (devido à deformação e à omissão de certos dados);

c- ausência de discriminação ou discriminação perceptual insuficiente.

O PROCESSO DE DESMONORAMENTO E DESORGANIZAÇÃO PSÍQUICA

A teoria da personalidade, formulada até aqui, se aplica, em graus diferentes, a todo o indivíduo.

A seguir, veremos o que ocorre em casos em que há um mau funcionamento e que é perturbador para o sujeito.

1- Se existe um desacordo entre o EU e a EXPERIÊNCIA e se, por um fato crítico, tal desacordo fica revelado de modo brusco e inegável, o processo de DEFESA não terá nenhuma força. O sujeito sente este estado de desacordo ao nível da subcepção e se torna ansioso. O grau de angústia é proporcional à amplitude do setor do EU afetado pela ameaça.

2- Como o processo de defesa não tem força aí, a experiência fica corretamente simbolizada. Ante o CHOQUE desta tomada de consciência, produz-se um estado de desorganização psíquica.

3- Neste estado de desorganização, o indivíduo deve manifestar um comportamento estranho e instável.

Em certos momentos, expressa abertamente as experiências anteriormente negadas ou deformadas pelo processo de defesa; em outros, adota uma atitude de acordo com a estrutura do EU.

Nestas condições, o indivíduo se encontra numa luta constante que se traduz num comportamento incongruente, instável, análogo ao que se denomina personalidade múltipla.

PROCESSO DE REINTEGRAÇÃO

Consiste em produzir um processo que conduza a um restabelecimento de acordo entre o EU e a EXPERIÊNCIA.

Tal processo implica em:

1- Dar condições ao sujeito de:

a- valorar sua experiência de modo menos condicional;

b- aumentar o nível de consideração positiva incondicional de si mesmo.

2- A consideração positiva incondicional, manifestada ao cliente por uma "pessoa-critério" representa um dos meios de realizar estas condições:

a- a comunicação efetiva desta consideração positiva incondicional é possível por meio da compreensão empática;

b- daí surge uma redução e inclusive a abolição das condições que afetam

sua valoração;

c- com isso, aumenta a consideração positiva incondicional de si mesmo;

d- se ocorrer a compreensão e a redução, o nível de angústia diminui, o processo de defesa se desfaz, as experiências se simbolizam corretamente e são assimiladas à estrutura do EU.

3- Quando 1 e 2 ocorrem, há como consequência:

a- diminuição da sensibilidade em relação às experiências ameaçadoras;

b- a defesa é menos frequente;

c- aumenta o acordo entre o EU e a EXPERIÊNCIA;

d- aumenta a consideração positiva dos demais;

e- aumenta a consideração positiva de si mesmo;

f- a conduta é guiada mais pela valoração organísmica;

g- o indivíduo funciona cada vez melhor.

RELAÇÕES FUNCIONAIS RELATIVAS À TEORIA DA PERSONALIDADE

No momento atual, nenhuma teoria da personalidade pode expressar relações funcionais entre as variáveis que compõem sua estrutura, em termo de equações.

Contentamo-nos com o estabelecimento de certas relações muito gerais e qualitativas. Baseados nessas relações, construímos o nosso sistema teórico e o submetemos à prova.

O FUNCIONAMENTO ÓTIMO DA PERSONALIDADE

Quando as condições favorecem o funcionamento pleno, o indivíduo apresenta as seguintes características:

1- Está "aberto" à sua experiência (não há condutas defensivas);

2- Suas experiências são acessíveis à consciência;

3- Suas percepções são tão corretas como o permitem os dados de sua experiência;

4- A estrutura do EU concorda com a experiência;

5- A estrutura do EU é uma gestalt fluida, modificável pela assimilação de novas experiências;

6- O indivíduo é o centro da valoração de sua experiência; e sua valoração é contínua e organísmica;

7- A valoração não está submetida a condições externas (há uma consideração positiva incondicional para si mesmo);

8- É adaptado à situação e age de forma criadora nas situações novas;

9- Descobre que sua capacidade de valoração é uma fonte de direção digna de confiança;

10- Tendo em conta o caráter positivo de um ponto de vista afetivo, da consideração positiva recíproca, este indivíduo vive com os OUTROS na melhor harmonia possível.

NOTA: A personalidade que funciona plenamente é a que flui constantemente, que está em contínua mudança e cujas condutas específicas não se prestam à previsão. A única previsão que se poderia fazer sobre sua conduta é que esse indivíduo manifestará, em qualquer ocasião, um grau perfeito de adaptação criadora e que se comprometerá em um processo contínuo de atualização.

ILUSTRAÇÃO DE UMA APLICAÇÃO DA TEORIA DA TERAPIA

Desde o meu primeiro contato com as ideias de Rogers, suas pesquisas, sua teoria da personalidade e da terapia, pensei que seria interessante "radicalizar" algumas de suas ideias e transformar alguns conceitos em hipóteses a serem experimentadas, através de meios pouco ortodoxos em se tratando de métodos psicoterápicos.

Um conceito que sempre me chamou atenção foi o de self e sua construção. Por isso, a partir desse conceito, organizei alguns trabalhos e, entre eles, uma monografia, que representou meu trabalho final num curso de pós-graduação na UFF.

A construção do SELF ocorre ao longo da vida de uma pessoa, ou seja, ao longo de sua história pessoal.

Para muitas pessoas que estão acostumadas a lidar com a Abordagem Centrada na Pessoa e com a Terapia Centrada no Cliente, como propostas de ação que valorizam o momento aqui e agora da relação terapêutica, que reconhecem que a experiência vivida num processo terapêutico não se presta muito a ser algo congelado no tempo; quando a visão arqueológica da história do cliente fica em segundo plano, quando se busca vivenciar o momento exato em que ele experiencia seus sentimentos no instante mesmo em que eles acontecem... sei que falar em história do cliente pode parecer estranho. Entretanto, é preciso que as pessoas, que possam estar interessadas em conhecer o que ando realizando, tenham um pouco de curiosidade e, mais do que isso, estejam abertas e sejam flexíveis para não partirem de conceitos preconcebidos sobre o que é ou não ACP, Rogeriano, ou algo assim.

Escrevi dois trabalhos, focalizando História/Psicoterapia/Self.

No primeiro, "Um Método Histórico e Uma Psicoterapia Centrada na Pessoa", (monografia apresentada à UFF, em 1995), cuja proposta foi apresentar uma aproximação entre o método da História, tal como é proposto por Paul Veyne, e o que ocorre na relação terapeuta-cliente.

No segundo, "Self: sua construção, desconstrução e autorreconstrução", apresentei um estudo mais dedicado a esse conceito teórico. Nele, procurei encontrar meios que pudessem ajudar o cliente a compreender como o seu Self foi construído ao longo de sua história. Para isso, utilizei um método denominado Recapitulação Progressiva da História Pessoal. Nele, pretende-se, usando de recursos de estados alterados de consciência, buscar uma sequência significativa de lembranças do cliente em relação às percepções que foi obtendo de seu EU, nos seus contatos com as pessoas e os momentos significativos da sua vida, desde o período pré-natal, em que as lembranças são "viscerais, sensoriais, musculares..." até o momento atual vivido pelo cliente.

Trata-se de um método alternativo, oferecido a alguns clientes que apresentam uma historia pessoal que justifique sua utilização. Ele, como sugere, ajuda na compreensão do modo como o self daquela pessoa foi construído. A partir disso, o cliente começa a perceber como deixou de confiar na sua própria avaliação e a "desconstruir" seu self, ao mesmo tempo que experimenta uma autorreconstrução do mesmo.

É um método genuinamente "centrado no cliente", pois todo o processo ocorre no interior de quem o vivencia, sendo o terapeuta somente um auxiliar/facilitador nessa busca de compreensão do modo como ele chegou a organizar sua personalidade, as incongruências que viveu ao longo de sua história, e aquelas, ainda presentes nele, responsáveis por suas dificuldades psicológicas atuais.

 

XII- A PESQUISA NA TCC

A PCC, como já falamos, talvez seja um dos enfoques teóricos mais dedicado à pesquisa.

Acredito ser desnecessário, tendo em vista os propósitos deste trabalho, relacionar aqui todas as pesquisas feitas, suas conclusões, autores, etc.

Aos interessados por essa parte, recomendo a leitura dos capítulos referentes às pesquisas, nas referências bibliográficas que mencionamos no final deste documento.

É bom ressaltar que resultados interessantes poderão ser encontrados principalmente nos livros: Psicoterapia Centrada no Cliente, On Becoming a Person, Psicoterapia e Relações Humanas e Carl R. Rogers: de la psychothérapie a l ‘enseignement.

XIII- APLICAÇÕES DO ENFOQUE CENTRADO NO CLIENTE

Como na Psicoterapia Centrada no Cliente, a relação terapeuta/cliente foi sempre considerada um tipo especial do relacionamento em geral, e também como as mudanças e o desenvolvimento da terapia sempre foram vistos como consequência do crescimento e do desenvolvimento em cada "encontro" humano, obviamente esta abordagem terapêutica se expandiu, em suas teorias, e passou a abranger estudos dos fenômenos observáveis para além daqueles que ocorriam nos encontros entre o psicólogo e seu cliente nas consultas individuais.

 

GRUPO INTENSIVO

Pessoas procuram grupos terapêuticos por estarem com problemas ou por quererem ter uma experiência de crescimento, conhecimento sobre si mesmas e sobre os outros.

A Abordagem Centrado no Cliente se mostrou muito aplicável aos grupos de encontro, como também a grupos terapêuticos.

Em outras palavras, essa separação que fiz entre grupos de encontro e grupos terapêuticos é muito sutil.

Qualquer grupo tem em si um potencial terapêutico. Todavia, o que considero diferenciar um do outro é basicamente o tempo de sua existência e sua proposta.

Os grupos terapêuticos não têm um tempo de vida preestabelecido. Eles existirão por 1, 2, 3 ou mais anos.

Os grupos de encontro têm como uma de suas características a previsão de seu início e seu término. O grupo de encontro é mais um GRUPO INTENSIVO, embora tenha em si um potencial terapêutico incalculável. Destina-se mais a pessoas que tenham uma problemática existencial que não interfere de forma intensa, ou altamente paralisadora, no seu comportamento.

Uma pessoa destacadamente neurotizada, com problemas acentuados que a impedem de viver uma vida a nível suportável, uma pessoa altamente desestruturada em sua personalidade, pode-se beneficiar de um grupo de encontro, mas sabemos que poderá receber mais ajuda num grupo mais permanente ou numa terapia individual.

Sobre grupos de encontro, podemos ler os trabalhos de Rogers (1970), Caulson (1972) e Meador (1971), e ver os filmes, entre os quais temos: Journey Into Self, (1968); Because That’s My Way, (1971), Em busca de si mesmo...

APLICAÇÃO EM EDUCAÇÃO

Os conceitos básicos, a teoria e a metodologia da terapia centrada no cliente são altamente aplicáveis à Educação.

Na terapia individual, é criado um clima no qual o cliente aprende sobre si mesmo. Da mesma forma, o educador pode criar um clima no qual aprendizagens cognitivas e afetivas ocorram em sala de aula.

A aplicabilidade não fica encerrada nos limites da escola do ensino fundamental.

Todos os níveis de escolaridade podem ser beneficiados, quando o professor for uma pessoa que possua em si certas características atitudinais, tais como as que descrevemos anteriormente e que consideramos como necessárias e suficientes para pôr em marcha o processo terapêutico.

Sobre esse tema, temos um livro muito interessante do próprio Rogers, traduzido para o português com o título Liberdade Para Aprender.

Sugerimos, todavia, às pessoas interessadas no assunto, que, antes de ler essa obra, leiam outras como Psicoterapia Centrada no Cliente (Rogers), Teoria da Personalidade e Aprendizagem Centrada no Aluno (H.Justo).

Como leitura adicional, seria bom se estudássemos o livro de Miguel de la Puente, Carl Rogers de la Psicoterapia a l´Enseignement.

Muitas pessoas leram apenas a obra de Rogers (Liberdade para Aprender) e não conseguiram entender a mensagem mais profunda daquele livro, por falta de embasamento e conhecimento das ideias da Terapia Centrada no Cliente. Ficaram, no final, com uma noção bastante limitada sobre a aplicabilidade dessa teoria à Educação.

Para não nos alongarmos demais, diríamos que as ideias lançadas pela TCC, por terem em seu bojo princípios básicos de relacionamento humano, mostraram-se aplicáveis a qualquer situação em que se pretenda facilitar o aparecimento de relacionamentos humanos construtivos. É fácil, pois, imaginar o grande número de situações e ambientes, em que o enfoque CC tem possibilidade de trazer grandes contribuições.

XIV-CONCLUSÕES

A seguir, citaremos a tradução por inteiro do texto contido no capítulo 30, do livro de Kaplan e Sadock, páginas 1842/3, Ed. 1975.

Seria difícil melhorar o quadro que nos deu Maeder (1973) dessa abordagem e seu impacto teórico, filosófico e institucional:

A base teórica da terapia Centrada no Cliente é uma fé na ‘racionalidade’ quase que perfeita do crescimento humano sob condições ideais.

A tendência atualizante no homem é uma força muito grande que tem seu próprio ritmo e direção.

A tarefa do terapeuta é facilitar a consciência e a confiança do cliente em seus próprios processos atualizantes.

O achado mais básico da terapia centrada no cliente é a das atitudes do terapeuta, que cria um ambiente ideal no qual o cliente possa se permitir crescer e se desabrochar. O processo da terapia é verdadeiramente centrado no cliente, cuja experienciação interna dita o ritmo e a direção do relacionamento terapêutico. A atitude de confiança descompromissada nos processos de crescimento dos indivíduos é tanto um sistema de valores quanto um guia para a terapia.

Como tal é contrária aos valores vigentes das escolas, da família, da igreja, dos negócios e outras instituições deste país. A atitude que predomina nessas instituições é de delimitação cautelosa e de um ceticismo implícito do processo de crescimento humano.

Basta que se imagine uma família ou escola que adote uma atitude de confiança descompromissada nos processos de crescimento de seus membros numa atmosfera de autenticidade, carinho e compreensão, para que se possa ter uma idéia do contraste que isso representa em relação à maioria das famílias e escolas.

É possível que a influência da terapia centrada no cliente se faça sentir em escala maior nas instituições desse país no futuro, talvez mais do que em psicoterapia. Isto já é verdadeiro até certo ponto. A quantidade de pessoas em educação e religião, por exemplo, que estão adotando esses princípios parece aumentar a cada ano.

A tentativa de conclusão que se poderia esboçar é que três décadas de escritos, pesquisas e terapia centrada no cliente oferecem um depoimento sobre um sistema de valores que advoga confiança no crescimento e desenvolvimento dos indivíduos sob as condições referidas. Como tal, a terapia centrada no cliente oferece um convite atraente, não só para o terapeuta numa relação cliente-terapeuta, mas também para grupos humanos de todos os credos, formas e tamanhos.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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______. Tornar-se Pessoa. Lisboa: Moraes Editores, 1970 - Tradução do original publicado em 1961.

______. Liberdade para Aprender. Belo Horizonte/MG: Interlivros de Minas Gerais Ltda., 1971 - Tradução do original publicado em 1969.

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______. Novas Formas do Amor - O casamento e suas alternativas. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1974 - Tradução do original publicado em 1972.

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LEITURAS COMPLEMENTARES

BELAS, J. L. Meus Textos. Página Pessoal - Rio de Janeiro - 2006

_____. O Estágio em Psicologia. In: Revista de Psicologia do Hospital Psiquiátrico Jurujuba, ano 1, vol. 2, Rio de Janeiro, 1976.

DE LA PUENTE, M. Carl R. Rogers: de la psychothérapie a l´enseignement. Paris: Epi S.A., 1970.

EVANS, R. I. - Carl Rogers: o homem e suas idéias. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 1979.

______. Construtores da Psicologia. São Paulo: Summus/Ed. da Universidade de São Paulo, 1979.

FRICK, W. B. Psicologia Humanista. Entrevistas com Maslow, Murphy e Rogers. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.

HANNOUN, H. L’attitude non-directive de Carl Rogers. Paris: Les Editions ESF, 1976.

ITÖ, HIROCHI. Introduccion al Counseling - El pensamiento de Carl R. Rogers. Madri: Editorial Razon y Fe S.A., 1971.

JUSTO, H. Carl Rogers -Teoria da Personalidade. Aprendizagem Centrada no Aluno. Porto Alegre: Livraria S. Antônio, 1973.

MARQUET, P-B. Rogers. Paris: Psychothéque/ Editions Universitaires, 1971.

MILHOLLAN, F. & FORISHA, B. E. Skinner X Rogers - maneiras contrastantes de encarar a educação. São Paulo: Summus Editorial Ltda. 1975

PERETTI, A. Libertad y Relaciones Humanas. Madrid: Ediciones Marova, 1971.

SANTOS, A. M. Momentos Mágicos - A natureza do processo energético humano. Brasília: CEGRAF, 1986

WOOD, J. K. et al. Abordagem Centrada na Pessoa. Vitória: Editora da Universidade Federal do Espírito Santo, 1994.

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Veja a primeira parte deste texto clicando no link http://www.jlbelas.psc.br/meustextos.php?var=meustextos&op=texto&id=34

Veja a segunda parte deste texto clicando no link http://www.jlbelas.psc.br/meustextos.php?var=meustextos&op=texto&id=35 

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