RUMO AO INFINITO

O ATENDIMENTO PSICOTERÁPICO PARA IDOSOS

J.LBelas- maio de 2017

Sinto-me um privilegiado pela oportunidade de, ao longo de meus 47 anos de trabalho em Psicologia Clínica e Psicoterapia, ter-me dedicado ao atendimento de Pessoas de diversas idades.
Nunca me senti desconfortável atendendo pessoas de diferentes faixas etárias. Alguns amigos meus, colegas de profissão, se dedicaram ao atendimento de crianças, outros ao de adolescentes e adultos e, outros mais, somente de idosos.
Conheço muitas pessoas com mais de 70 anos que mantêm uma dinâmica de via ativa, repleta de momentos de alegria e realizações. Todavia, as que me procuram, e se situam nesta faixa etária, quase sempre se sentem como alguém que carrega nas costas um fardo imensamente pesado, ou, no mínimo, sem nenhum atrativo.
“Quando chegares ao topo de uma montanha, continua subindo.”
Li esta frase em um livro chamado Introdução ao Zen Budismo. Ela me despertou uma série de reflexões. Uma delas me fez pensar sobre o movimento da vida de cada pessoa.
Em outras palavras, nossa vida, concretamente, tem seu início no momento em que somos concebidos. A partir daí, começamos nossa caminhada rumo ao “topo da nossa montanha”.
A altura de montanha de cada pessoa é única. Cada um escala montanhas de alturas diferentes, mas, todos, chegam ao seu topo, também de maneira única. Alguns, vitoriosos, tal como um alpinista que acaba de escalar o Everest. Outros, frustrados por terem que desistir e começar seu caminho de descida possivelmente antes da hora que ela gostaria. Outros, ainda, se esforçam em demasia para chegar ao topo e , ao chegarem lá, despencam em velocidade vertiginosa e , em pouquíssimo tempo chega ao pé de sua montanha. E assim por diante.
Há muitos tipos de escaladas e muitas formas de vivermos esse tempo de subida. Acho, entretanto, pensando na frase que me inspira a escrever sobre este tema, o que assusta muito as pessoas não é forçosamente a dificuldade que cada possa vivenciar na subida, já que se espera que elas ocorram, mas a desilusão e o medo da descida.
Enquanto há a caminhada para o topo, tudo parece força e conquista. Ao descer, muitas coisas soam como fraquezas e derrotas.
Agora vejamos o que isso tem a ver com o atendimento de idosos em psicoterapia.
O idoso que me procura, geralmente é aquele que parece ter escalado sua montanha, chegado ao topo dela, e, agora, fala sobre a dificuldade que sente ao descê-la.
Mas quais são essas dificuldades. Algumas delas são: 1- de ordem física; 2- de ordem familiar; 3- de ordem ocupacional; 4-de ordem existencial; e outras menos impactantes para ele.
Não é propósito meu, alongar-me nesses temas, já que a maior parte deles é de conhecimento geral.
O que quero pensar com vocês, é o fato de geralmente ocorrer essa “descida da montanha”, e se ela precisa, forçosamente, ocorrer.
Tenho percebido na prática clínica que o sentimento mais corrente é : uma vez alcançado o topo, não há mais nada a alcançar.
Mas, o que significaria, depois de certa idade, “continuar escalando sua montanha”?
O idoso, forçosamente, perderia sua capacidade de ver, sentir, refletir, ajudar os mais novos, com sua experiência?
Não estaria ele com possibilidade de continuar sua escalada, mesmo após chegar ao topo, quando seu vigor físico cede lugar ao vigor de sua rica experiência de vida?
Nesse ponto alguns de vocês poderão me dizer: mas existem idosos que passam a ver o mundo de forma negativista, reclamam de tudo e de todos, seus raciocínios são limitados, às vezes tornam-se rígidos em suas ideias… Esses não teriam como continuar escalando suas montanhas, eles declinam, as descem.
E aí eu questiono, mais uma vez: o que a maioria de nós faz para ajudá-los a “continuar subindo”? Fazemos muito pouco. Geralmente achamos que o melhor a se fazer é ajuda-los a descer sem grandes embaraços e sem riscos à sua integridade física.
A grande maioria dos que têm idosos sob sua guarda e cuidados, os fragilizam, infantilizam, negando-lhes o enorme potencial de “alpinista” que possuem. E, pior, tudo isso em nome do afeto, da gratidão…
No atendimento ao idoso, torna-se imprescindível nosso estímulo para que ele se valorize, valorizando tudo o que trás dentro de si. Que possa ter orgulho do que fez de bom e aceitação do que talvez não tenha sido sua melhor obra.
O idoso só não tem um corpo jovem, mas ele pode ser muito mais poderoso do que qualquer atleta olímpico quando o assunto é vida.
Seu monte Olimpo não tem topo. Seu cume finda no infinito e a estrada que o leva até esse ponto é o valor, consciente, que ele mantem de si como uma PESSOA.
Todos os potenciais que ele adquiriu não se perderam. Esse é seu tesouro, a herança maior que poderá legar aos seus. Sua História e experiências são a matéria prima fundamental para que, podendo utilizar essa sua riqueza em benefício do Outro, sinta que sua escalada ainda não chegou ao final, e a mantenha até o dia em que, do alto de “seu Everest”, acene para nós, continuando sua escalada, rumo ao seu infinito.